Carnaval vira palanque: política invade a folia e escancara uso partidário da festa

Carnaval vira palanque: política invade a folia e escancara uso partidário da festa

Leques, slogans e números de partido circulam entre foliões em São Paulo, enquanto o discurso pró-Lula se mistura ao samba e levanta suspeitas de propaganda fora de hora

O que era para ser suor, música e fantasia acabou ganhando um tempero indigesto: militância política empurrada no meio da folia. Durante o Carnaval de rua em São Paulo, materiais com mensagens favoráveis à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram distribuídos em blocos populares, transformando abanadores de papel em panfletos ideológicos.

As ações partiram de equipes ligadas ao PT e ao PSol, que circularam por blocos tradicionais da região central entregando leques com frases, números e slogans que remetem diretamente à campanha lulista de 2026. Em vez de apenas refrescar os foliões do calor, o material tentava esquentar o debate político — e não de forma discreta.

Entre os envolvidos está o deputado estadual Guilherme Cortez, além da chamada Bancada Feminista da Assembleia Legislativa paulista. As mensagens falavam abertamente em “reeleger Lula” e em “limpar o Congresso”, linguagem que soa menos como opinião casual e mais como ensaio eleitoral antecipado.

Outra parlamentar, a deputada federal Juliana Cardoso, também entrou no bloco — literalmente. Seus leques traziam o número 13 e frases nostálgicas ligadas às vitórias eleitorais de Lula, reforçando o vínculo partidário em pleno Carnaval. A justificativa foi a de sempre: não haveria pedido explícito de voto. Ainda assim, o recado político era impossível de ignorar.

Especialistas em direito eleitoral alertam que esse tipo de prática pode, sim, ultrapassar a linha da legalidade. Segundo a jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral, o uso das chamadas “palavras mágicas” — números, slogans históricos e referências eleitorais — pode configurar propaganda antecipada, sujeita a multa.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, a escola de samba Acadêmicos de Niterói prepara um desfile em homenagem a Lula, ampliando a sensação de que o Carnaval virou vitrine política para o governo e seus aliados. Mesmo quando especialistas dizem que o samba-enredo, isoladamente, não caracteriza crime eleitoral, o contexto geral reforça a crítica: há um esforço claro de associar festa popular, dinheiro público e promoção de imagem presidencial.

No fim, sobra para o folião a desconfortável constatação de que até o Carnaval foi capturado pela lógica do poder. A maior festa do país, que deveria unir diferenças sob o som do tambor, acabou servindo de palco para propaganda disfarçada — uma mistura que cheira menos a confete e mais a oportunismo político.

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