
Ciência abandonada, futuro perdido
Cortes, descaso e silêncio: como o Brasil deixou escapar uma descoberta histórica
O Brasil abriu mão de uma das descobertas científicas mais promissoras de sua história recente por falta de investimento, prioridade e compromisso com a ciência. A denúncia foi feita pela pesquisadora Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ao revelar que o país perdeu a patente internacional da polilaminina, substância ligada à recuperação de pessoas tetraplégicas.
Segundo a cientista, a pesquisa começou ainda nos anos 2000 e o pedido de patente foi registrado em 2007, quando o projeto estava no início, mas já apontava enorme potencial terapêutico. Foram 18 anos de espera até a concessão definitiva da patente, que só saiu em 2025. O problema é que patentes internacionais têm validade de 20 anos — e o tempo jogou contra o Brasil.
O golpe fatal veio com os cortes orçamentários brutais que atingiram as universidades públicas. Sem recursos, a UFRJ deixou de pagar as taxas internacionais necessárias para manter a patente ativa fora do país. Resultado: o Brasil perdeu definitivamente o direito sobre a tecnologia no exterior.
“Parou de pagar, perdeu. Não tem como recuperar. Outros países agora podem usar livremente”, afirmou Tatiana.
A patente nacional só não teve o mesmo destino porque a própria pesquisadora bancou os custos do próprio bolso por um período, numa tentativa desesperada de evitar um prejuízo ainda maior.
Embora os cortes tenham ocorrido durante o governo Michel Temer, o episódio escancara algo mais amplo: uma política contínua de desvalorização da ciência, que se perpetua e se aprofunda sob sucessivos governos — inclusive o atual governo petista, que insiste em discursos grandiosos enquanto a pesquisa segue sufocada.
Para Tatiana, não se tratou apenas de falta de dinheiro, mas de um projeto claro de enfraquecimento da produção científica nacional, empurrando conhecimento, talentos e inovação para fora do país.
A polilaminina, desenvolvida ao longo de mais de duas décadas com recursos públicos e inteligência brasileira, agora pode ser explorada livremente por outros países, sem qualquer retorno econômico ou estratégico para o Brasil.
No fim das contas, quem perde não é um governo ou uma universidade — é o país inteiro. E enquanto o governo petista posa de defensor da ciência em discursos, casos como esse mostram que, na prática, o abandono continua.