Entre algoritmos e discursos: Lula volta a criticar IA e redes sociais longe do Brasil

Entre algoritmos e discursos: Lula volta a criticar IA e redes sociais longe do Brasil

Na Índia, presidente defende “interesse coletivo” para a inteligência artificial, mas repete discurso genérico enquanto ignora contradições internas

Durante sua passagem pela Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a subir no palanque internacional para criticar o uso da inteligência artificial e das redes sociais, pedindo que a tecnologia seja colocada a serviço do chamado “interesse coletivo”. A declaração foi feita em entrevista ao programa India Today, exibida nesta sexta-feira, como parte da agenda do petista no país asiático.

Segundo Lula, a IA já influencia diretamente a vida das pessoas — da indústria à medicina — e, por isso, não poderia ficar “nas mãos de poucos”. O problema é que o discurso soa como déjà-vu: frases de efeito, tom professoral e nenhuma autocrítica sobre como o próprio governo lida com dados, plataformas digitais e gastos públicos bilionários em projetos ainda nebulosos.

Em mais uma fala que mistura preocupação social e retórica política, Lula defendeu a criação de uma regulação global da inteligência artificial, citando a Organização das Nações Unidas como possível guardiã desse processo. Para críticos, a proposta parece mais um apelo genérico do que um plano concreto — especialmente vindo de um governo que mal consegue organizar sua própria política digital interna.

A entrevista ocorreu às vésperas de uma reunião oficial com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, encontro que encerra a agenda de Lula focada em tecnologia no país. O presidente participou de uma cúpula internacional sobre IA, onde o Brasil tentou se vender como defensor da inclusão digital e da soberania tecnológica — apesar de depender fortemente de infraestrutura estrangeira e não produzir sequer chips estratégicos.

Autoridades brasileiras aproveitaram a viagem para promover o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024–2028, que prevê investimentos públicos de R$ 23 bilhões em quatro anos. O discurso oficial fala em “inclusão social” e “desenvolvimento sustentável”, mas especialistas alertam para a distância entre o marketing político e a realidade: fuga de cérebros, baixa produção científica e dependência quase total de serviços de nuvem internacionais.

Enquanto Lula critica a exploração de dados por big techs e demoniza as redes sociais em fóruns internacionais, o Brasil segue ocupando posição intermediária nos rankings globais de maturidade digital. A ironia é evidente: muito discurso sobre o futuro, pouca entrega no presente.

No fim, a sensação é a de sempre. Lula volta a atacar IA e redes sociais como se fossem vilãs abstratas, sem explicar como pretende transformar palavras em políticas eficazes. Para quem acompanha o roteiro, fica a impressão de que a tecnologia muda — mas o discurso do presidente continua rodando no mesmo algoritmo antigo.

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