Escândalo na Polícia Civil de SP: áudios revelam cobrança de até R$ 33 milhões em propina para enterrar investigações

Escândalo na Polícia Civil de SP: áudios revelam cobrança de até R$ 33 milhões em propina para enterrar investigações

Operação conjunta do Ministério Público, Polícia Federal e Corregedoria expõe esquema de corrupção dentro de delegacias em São Paulo; nove pessoas foram presas.

Áudios e mensagens expõem esquema milionário de corrupção policial

Uma investigação conduzida pelo Ministério Público de São Paulo, pela Polícia Federal e pela Corregedoria revelou um escândalo que lança uma sombra preocupante sobre a segurança pública em São Paulo. Conversas encontradas em celulares apreendidos mostram que policiais civis teriam cobrado valores que chegariam a R$ 33 milhões em propina para interromper investigações envolvendo crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Os diálogos, que incluem áudios e mensagens de texto, indicam um cenário alarmante: delegacias que deveriam combater o crime teriam sido usadas como espaços de negociação para garantir a impunidade de investigados.

Operação prende policiais, doleira e outros envolvidos

A operação, batizada de Bazzar, resultou na prisão de nove suspeitos. Entre os detidos estão policiais civis, uma doleira e outros envolvidos no esquema financeiro.

Entre os agentes públicos presos estão:

  • José Eduardo da Silva, delegado do 35º Distrito Policial
  • Roldnei Eduardo dos Reis Baptista, investigador do DPPC
  • Rogério Coichev Teixeira, investigador do Serviço Aerotático
  • Ciro Borges Magalhães Ferraz, escrivão do 35º DP

Também foi presa a doleira Meire Bonfim da Silva Poza, além de outros investigados ligados ao esquema financeiro.

Ao todo, a Justiça autorizou 11 prisões preventivas, 23 mandados de busca e apreensão e bloqueio de bens dos investigados.

Conversas revelam valores milionários para “travar” investigações

Trechos de áudios obtidos pelos investigadores deixam claro o tom das negociações. Em uma das gravações, um dos envolvidos menciona diretamente uma transferência milionária para resolver um problema dentro da delegacia.

Em outra mensagem, um investigado afirma que um delegado já teria recebido mais de R$ 20 milhões em propina. Em diferentes conversas, surgem valores variados pagos em parcelas: R$ 10 mil, R$ 40 mil, R$ 100 mil, R$ 700 mil e até R$ 5 milhões para encerrar um único inquérito.

Essas trocas de mensagens reforçam a suspeita de que parte da estrutura policial foi usada como instrumento de pressão e extorsão.

Delegacias teriam virado balcões de negociação

Segundo a investigação, policiais ligados ao Departamento de Investigações Criminais (Deic) e ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) participariam do esquema.

As cobranças ilegais ocorreriam em diferentes locais, como no hangar do Serviço Aerotático da polícia no Campo de Marte e em delegacias da capital paulista, incluindo o 16º Distrito Policial, na Vila Clementino, e o 35º Distrito Policial, no Jabaquara.

Para investigadores, a estrutura que deveria servir à Justiça acabou sendo transformada em um verdadeiro “mercado clandestino” para negociar a paralisação de investigações.

Como funcionava o esquema de corrupção

De acordo com os investigadores, o grupo utilizava duas estratégias principais:

  1. Policiais obtinham relatórios de inteligência financeira sobre pessoas investigadas e depois cobravam dinheiro para não dar andamento aos casos.
  2. Doleiros e operadores financeiros ofereciam propina para que os policiais interrompessem investigações ou destruíssem provas.

Entre as práticas identificadas estão até trocas de HDs apreendidos por dispositivos vazios, numa tentativa de apagar evidências.

Além disso, o grupo usava empresas de fachada e operações fictícias de importação para lavar o dinheiro obtido ilegalmente. Uma das estratégias incluía transformar dinheiro em espécie em créditos de vale-refeição, usados posteriormente para movimentar valores sem levantar suspeitas.

Escândalo levanta críticas e questionamentos sobre corrupção policial

O caso reacende um debate delicado: quando aqueles que deveriam garantir a lei passam a negociá-la, a confiança da população nas instituições sofre um golpe profundo.

A revelação de que delegacias podem ter sido usadas como instrumentos de chantagem e negociação financeira expõe uma crise ética grave dentro de parte da estrutura policial. Especialistas em segurança pública afirmam que casos assim não apenas prejudicam investigações legítimas, como também fortalecem redes criminosas que passam a operar com sensação de proteção institucional.

O que diz o governo de São Paulo

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que a Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo participa das investigações e que a corporação não tolera desvios de conduta.

Segundo o comunicado, todas as medidas disciplinares e legais serão adotadas caso as irregularidades sejam confirmadas.

Ainda assim, o escândalo já deixou uma marca profunda: ele expõe como a corrupção pode infiltrar-se justamente nas instituições que deveriam combatê-la — e reforça a urgência de mecanismos mais rígidos de fiscalização dentro das próprias forças de segurança.

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