Escândalo no INSS

Escândalo no INSS

Ex-dirigente sindical movimentou R$ 11,6 milhões sem compatibilidade com renda declarada

Relatórios enviados pela Receita Federal ao Congresso revelam que Tonia Galleti, ex-coordenadora jurídica do Sindicato Nacional dos Aposentados e Pensionistas (Sindnapi), movimentou R$ 11,6 milhões em contas bancárias ao longo do último ano. O valor contrasta fortemente com os rendimentos informados por ela à Receita, que somaram R$ 487,8 mil no mesmo período.

Em apenas uma das contas — uma conta conjunta no banco Itaú — a movimentação chegou a R$ 6,9 milhões, segundo dados oficiais. Para a Receita, a discrepância entre os valores declarados e os recursos movimentados levanta fortes indícios de irregularidades fiscais.

O Sindnapi é uma das entidades investigadas na chamada “Farra do INSS”, esquema que apura descontos indevidos aplicados a aposentados e pensionistas. A entidade é ligada à Força Sindical e tem como vice-presidente José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O sindicato foi fundado e comandado por João Batista Inocentini, pai de Tonia, até sua morte em agosto de 2023. Na ocasião, Lula divulgou nota oficial lamentando o falecimento do dirigente sindical.

Pagamentos a familiares e empresas ligadas à cúpula

Além da movimentação financeira pessoal, documentos obtidos pela CPMI do INSS indicam que o sindicato repassou ao menos R$ 8,2 milhões a empresas pertencentes a familiares de dirigentes, incluindo pessoas diretamente ligadas a Tonia Galleti.

Um dos casos mais emblemáticos envolve a empresa Gestora Eficiente, hoje desativada, que pertenceu à esposa do presidente do Sindnapi e ao marido de Tonia. A empresa era responsável por processar cadastros de aposentados e encaminhar dados ao INSS para viabilizar descontos nos benefícios. Apenas em comissões, a firma teria faturado R$ 4,1 milhões.

Ou seja, a cada desconto aplicado ao benefício de um aposentado, uma parte do dinheiro retornava à empresa ligada à cúpula sindical — prática que gera forte repúdio e questionamentos éticos.

Sindicato perdeu quase todos os filiados

Apesar das justificativas apresentadas por Tonia em depoimento à CPMI — onde alegou que os valores recebidos eram fruto de trabalho familiar — os números do sindicato contam outra história. Entre 2020 e 2024, os descontos aplicados aos aposentados saltaram de R$ 23 milhões para R$ 154,7 milhões, um crescimento de mais de 560%, após parceria com o banco BMG.

O aumento veio acompanhado de milhares de reclamações por venda casada e práticas abusivas. Com o avanço das investigações e a criação de um mecanismo do INSS para facilitar o cancelamento dos descontos, o Sindnapi perdeu 98% dos filiados: de mais de 317 mil associados, restam hoje cerca de 5 mil.

Defesa contesta números da Receita

Procurada, Tonia Galleti reconheceu a existência da conta bancária, mas afirmou que os valores apresentados pela Receita não correspondem aos seus extratos. Segundo ela, trata-se de uma conta conjunta com o marido e os recursos teriam origem lícita, provenientes da advocacia e da docência, com tributação regular.

Ainda assim, os dados oficiais reforçam a gravidade do caso e alimentam críticas sobre a atuação de sindicatos que, sob o discurso de defesa dos aposentados, acabaram se transformando em máquinas de arrecadação às custas de beneficiários vulneráveis.

O episódio expõe um sistema marcado por conflitos de interesse, falta de transparência e abuso, ampliando a pressão por responsabilização dos envolvidos e por mudanças estruturais no modelo de descontos sindicais no INSS.

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