
“Ferrar com essa mulher”: mensagens revelam gabinete paralelo de Moraes contra Zambelli
Conversas de 2022 mostram auxiliares do ministro combinando estratégias para atacar a deputada, hoje presa na Itália
Novas revelações expõem como assessores do ministro Alexandre de Moraes, à época presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atuaram nos bastidores para perseguir a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP). As mensagens, de outubro de 2022, mostram um clima de hostilidade declarado contra a parlamentar, atualmente presa na Itália desde julho deste ano e alvo de diversos processos no Supremo Tribunal Federal (STF).
Em 10 de outubro, Eduardo Tagliaferro, então chefe da Unidade Especial de Combate à Desinformação do TSE, compartilhou em um grupo de WhatsApp um vídeo publicado por Zambelli. “Ela está pegando pesado agora”, escreveu. Logo depois, disse que salvaria o material no site Verifact para que não fosse perdido.
A reação veio na mesma hora. Marco Antônio Vargas, juiz auxiliar de Moraes, respondeu: “Boa! Esse post é bom de ferrar com essa mulher”. A frase foi comemorada por Airton Vieira, assessor de Moraes no STF, que reagiu com emoji de aplausos.
Dias depois, em 19 de outubro, a deputada voltou a ser alvo. Vargas compartilhou outro vídeo de Zambelli, ironizando uma homenagem dela à própria mãe: “Absurdo é a idiota dizer que tem orgulho da mãe”. Tagliaferro entrou na brincadeira e afirmou: “Vamos fazer uma surpresa para a diplomação rsrsrs. Estou documentando tudo”. Na mesma data, Airton Vieira acrescentou: “Hoje o ministro disse que assinaria o bloqueio da conta dela”.
Zambelli segue sob cerco de Moraes
Mesmo dois anos após essas trocas de mensagens, Zambelli continua no centro de disputas políticas e judiciais. Aliada do ex-presidente Jair Bolsonaro, ela responde a investigações no STF ligadas à suposta “milícia digital”, aos atos de 8 de janeiro e à divulgação de conteúdos classificados como desinformação. Moraes, que já havia aparecido nas conversas internas autorizando bloqueios e medidas contra a deputada, segue como protagonista nas ações contra ela.
Por que a operação é questionada como ilegal?
Especialistas apontam uma série de irregularidades:
- STF não pode dar ordens ao TSE: o Supremo não tem autoridade hierárquica sobre a Justiça Eleitoral, e usar a estrutura do TSE para censura seria desvio de finalidade.
- Usurpação de competências: o STF assumiu papéis de investigação e acusação, que pertencem ao Ministério Público e à Polícia Federal.
- Falta de devido processo legal: decisões surgiram de conversas em grupos de WhatsApp, sem contraditório ou ampla defesa, o que afronta a Constituição.
- Juiz parcial: assessores já antecipavam o resultado desejado, comprometendo a imparcialidade.
- Desvio de finalidade: a unidade de combate à desinformação do TSE foi usada fora do período eleitoral e para fins criminais.
A chamada “Vaza Toga”
Essas revelações fazem parte de um conjunto maior de denúncias conhecidas como “Vaza Toga”, iniciado por reportagens da Folha de S. Paulo e aprofundado por jornalistas como Glenn Greenwald, Fábio Serapião, David Ágape e Eli Vieira. Agora, os novos documentos reforçam a suspeita de que havia uma estrutura paralela atuando sob ordens diretas de Moraes, misturando funções institucionais com perseguição política.