
Governo emperrado: Brasil só vence a Venezuela em ineficiência
Relatório global aponta que país segue atolado em burocracia, má gestão e gasto público sem retorno à sociedade
O Brasil voltou a figurar nas últimas posições do Ranking de Competitividade Global quando o assunto é eficiência governamental — ocupando o penúltimo lugar entre 69 países avaliados, à frente apenas da Venezuela. O dado faz parte de um levantamento do International Institute for Management Development (IMD), em parceria com a Fundação Dom Cabral, e mostra um retrato incômodo da máquina pública brasileira: cara, lenta e ineficaz.
Apesar de ter subido quatro posições no ranking geral — saindo da 62ª para a 58ª colocação — o país continua tropeçando nos mesmos velhos obstáculos. A pesquisa leva em conta fatores como infraestrutura, desempenho econômico, ambiente de negócios e, claro, a capacidade do governo de agir com inteligência e agilidade. Nesse último ponto, estamos na lanterna.
Ineficiência crônica e gasto sem retorno
Entre os subitens que puxaram o Brasil para baixo, destacam-se o custo de capital, onde somos os piores (69º lugar), e o protecionismo, com uma das piores pontuações (68º). Também amargamos as últimas colocações em finanças públicas, legislação trabalhista voltada ao desemprego e flexibilidade das políticas adotadas.
Para Hugo Tadeu, da Fundação Dom Cabral, a conclusão é direta: o governo brasileiro gasta muito e mal. Segundo ele, não basta olhar para o volume de recursos públicos investidos, mas sim para a qualidade desse gasto e seu impacto real na vida das pessoas.
“Temos um governo que consome muito do que produzimos, mas entrega pouco em retorno à sociedade”, afirma Tadeu. “É preciso medir o quanto esse investimento impulsiona a economia e melhora a qualidade de vida.”
O atraso que não sai da pauta
As críticas também recaem sobre o modelo mental que orienta a gestão pública no Brasil. Em vez de focar em inovação, educação e sustentabilidade — como fazem os países mais competitivos — o Brasil segue patinando em pautas antigas, como carga tributária elevada, mudanças cambiais e falta de previsibilidade institucional.
Além disso, o país continua sendo um dos mais fechados ao comércio internacional, o que limita a concorrência e desestimula a eficiência. E na educação — tanto básica quanto superior — o desempenho segue abaixo do mínimo necessário para formar uma sociedade preparada para os desafios do século 21.
“Estamos atrasados até para fazer diagnósticos”, diz Tadeu. “É preciso renovar a forma como avaliamos a gestão pública e traçar um plano claro para o futuro.”
O que fazer?
Na avaliação do especialista, os três principais focos deveriam ser:
- Qualidade do gasto público — investir melhor, não apenas mais.
- Ambiente de negócios estável — regras claras, menos burocracia.
- Formação de lideranças e capital humano — investir em educação e inovação como base para o crescimento.
Enquanto países como Suíça, Singapura e Hong Kong lideram com eficiência e visão estratégica, o Brasil ainda precisa sair do básico. E talvez o primeiro passo seja justamente esse: parar de aceitar o inaceitável como normal.