Indignação Seletiva: Quando o Discurso Ofende Mais que o Crime

Indignação Seletiva: Quando o Discurso Ofende Mais que o Crime

PT corre à Justiça por rótulo político, mas segue evitando chamar facções criminosas de terroristas

O mesmo governo que evita classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas decidiu agir rapidamente quando o incômodo foi verbal — e político. Após o vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth (PSD), chamar o PT de partido “narcoafetivo”, a legenda do presidente Lula acionou a Justiça, alegando ofensa, fake news e ataque à honra.

A declaração de Ramuth foi feita durante um evento na zona sul da capital paulista, enquanto comentava a crise migratória venezuelana. Ao criticar o regime de Nicolás Maduro, o vice-governador estendeu o ataque ao partido que governa o Brasil, comparando o PT a um “Estado narcoafetivo”, numa analogia direta com o narcotráfico e regimes autoritários.

A resposta do PT veio em tom duro — e rápido. Para a sigla, o comentário ultrapassa os limites da crítica política e configura manipulação da opinião pública. O secretário nacional de Comunicação do partido, Éden Valadares, afirmou que mentiras e fake news não podem ser normalizadas, sobretudo quando partem de autoridades eleitas. Segundo ele, Ramuth terá que responder judicialmente pelo que disse.

Até aqui, nada de novo na política brasileira: palavras viram processos, adjetivos viram ações judiciais. O que chama atenção é a ironia do contexto. O mesmo campo político que hoje se diz vítima de associação com o narcotráfico é o que, historicamente, resiste a enquadrar grandes facções criminosas como organizações terroristas — mesmo diante de seu poder armado, controle territorial e impacto direto sobre a vida da população.

Mais irônico ainda é lembrar que o próprio presidente Lula já declarou, em outras ocasiões, que o traficante seria, em certa medida, vítima do usuário de drogas. Uma visão socialmente controversa, mas que ajuda a entender por que o governo prefere o silêncio institucional quando o assunto são facções criminosas — e a indignação judicial quando o alvo é o partido.

A ofensiva jurídica contra Ramuth se soma a outras iniciativas recentes do PT, como a ação movida contra o deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP), acusado de associar o partido e o presidente ao narcotráfico internacional. Em ambos os casos, a legenda pede remoção de conteúdo e indenização por danos morais, reforçando o argumento de que liberdade de expressão não autoriza imputação de crimes.

Enquanto isso, o debate maior segue sem resposta: por que palavras machucam mais do que balas? Por que rótulos políticos geram ações imediatas, mas organizações que espalham terror real continuam tratadas como um “problema social complexo”?

No Brasil da indignação seletiva, a Justiça é rápida para proteger reputações — mas lenta quando o assunto é enfrentar, sem rodeios, o poder do crime organizado.

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