
Intervenção sob crítica
Governo Lula reconhece vice de Maduro, mas vê instabilidade e impasse após pressão dos EUA
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que o comando da Venezuela vive um momento de grande incerteza, após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos e diante de novos ultimatos feitos por Washington à vice-presidente Delcy Rodríguez, agora reconhecida pelo Brasil como autoridade em exercício no país vizinho.
A posição oficial foi anunciada pela secretária-geral do Itamaraty, Maria Laura da Rocha, depois de uma reunião no Ministério das Relações Exteriores com Lula e integrantes do governo. O presidente participou do encontro de forma virtual, já que estava no Rio de Janeiro.
Apesar do reconhecimento formal de Delcy Rodríguez como governante interina, fontes do Palácio do Planalto admitem, nos bastidores, que não está claro quem de fato controla o poder em Caracas. Segundo essas avaliações, a permanência de Delcy no comando dependeria diretamente das negociações em curso com os Estados Unidos.
“Ela só se mantém se aceitar as condições impostas por Washington”, afirmou uma fonte envolvida nas discussões diplomáticas, ressaltando que parte das exigências americanas é vista como inaceitável pelo governo venezuelano.
Diplomatas brasileiros também relatam dificuldade para entender qual será o plano dos EUA para a Venezuela no período pós-Maduro. Isso porque as declarações públicas do presidente Donald Trump entram em choque com os discursos feitos por Delcy Rodríguez.
Trump afirmou que os Estados Unidos assumiriam o controle do país durante uma fase de “transição” e disse que a vice-presidente estaria disposta a colaborar com as decisões americanas, inclusive sobre a exploração do petróleo venezuelano. Pouco depois, no entanto, Delcy apareceu em uma transmissão ao vivo rejeitando a deposição de Maduro, reafirmando que ele continua sendo o único presidente legítimo e prometendo defender a soberania e os recursos naturais do país.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, reforçou a pressão ao afirmar que novas decisões serão tomadas com base nas atitudes concretas do governo venezuelano nos próximos dias, o que foi interpretado por diplomatas como um novo ultimato.
No Planalto, o maior temor é o cenário pós-Maduro. Assessores de Lula avaliam que disputas internas nas Forças Armadas ou entre grupos armados podem levar a um quadro de desordem semelhante ao observado em países como Iraque e Líbia após intervenções estrangeiras.
Há também preocupação com reflexos diretos no Brasil, especialmente na fronteira com Roraima, caso a instabilidade provoque um novo aumento no fluxo migratório.
Lula já se manifestou publicamente contra a ação dos Estados Unidos, classificando os bombardeios e a captura de Maduro como uma afronta grave à soberania venezuelana e um precedente perigoso para a ordem internacional.
Enquanto isso, o governo brasileiro informou que a situação na fronteira segue tranquila. Segundo o ministro da Defesa, José Múcio, o movimento é baixo e cerca de 100 brasileiros que estavam na Venezuela retornaram ao país sem maiores dificuldades.
O Brasil deve levar sua posição crítica à próxima reunião do Conselho de Segurança da ONU, reforçando a defesa do direito internacional e a condenação a qualquer tipo de intervenção militar em países soberanos.