
Investigação revela que verba da Lei Rouanet destinada ao Jockey de SP foi desviada para empresas ligadas a Marconi Perillo
R$ 83,6 milhões em incentivos fiscais teriam sido usados de forma irregular, incluindo pagamentos a empresas familiares e despesas pessoais
O Jockey Club de São Paulo, instituição centenária às margens do rio Pinheiros, recebeu ao longo dos últimos sete anos R$ 83,6 milhões em incentivos fiscais do governo federal e da prefeitura, destinados à restauração de sua sede histórica. Mas uma investigação do UOL, baseada em documentos internos e notas fiscais, aponta que parte desses recursos foi desviada para empresas com vínculos familiares e políticos com Marconi Perillo, ex-governador de Goiás e presidente nacional do PSDB.
Segundo a apuração, R$ 22,4 milhões da Lei Rouanet e R$ 61,2 milhões contestados pela prefeitura teriam sido direcionados a um complexo esquema envolvendo a produtora cultural Elysium, transformada em Organização Social de Cultura em 2014, por decreto assinado por Perillo. Desde então, a Elysium assumiu um papel central na coordenação das obras do Jockey, contratando fornecedores e direcionando pagamentos a empresas ligadas à família de Débora Perillo, prima de Marconi.
Entre os exemplos citados, a Sapé, empresa de administração de imóveis de Goiânia da qual Débora é sócia, foi contratada para fornecer um “kit gerador” enviado a uma cidade sem relação com as obras do hipódromo. Outra fornecedora frequente, a Biapó Construtora, tem vínculos societários com a Elysium. Já a Construtora Vidal, apontada como principal executora de serviços de R$ 11,2 milhões, não foi localizada nos endereços fornecidos, revelando irregularidades na prestação de contas.
Além de pagamentos a empresas questionáveis, foram registradas despesas pessoais ou sem relação direta com as obras, como jantares em restaurantes de luxo, compras em farmácias e contas de dedetização e higienização. A Elysium alegou que se tratavam de “despesas administrativas” dentro do limite permitido pela Lei Rouanet, mas o MinC ressalta que esses gastos só são aceitos quando estritamente necessários ao projeto, sendo proibido o reembolso de bebidas alcoólicas.
Marconi Perillo negou envolvimento na indicação da Elysium e afirmou conhecer Débora Perillo “apenas de vista”. O presidente do Jockey, Marcelo Motta, defendeu a regularidade dos processos do clube, criticando tentativas de desvalorizar o imóvel e transformar informações técnicas em polêmica política.
Apesar dos milhões aplicados, a reportagem constatou que muitas áreas do Jockey continuam abandonadas. A Tribuna 1, que recebeu R$ 7,7 milhões, exibe vidros quebrados, bancos danificados e placas de projeto abandonadas, evidenciando a disparidade entre os recursos declarados e a execução das obras.
A Controladoria-Geral do Município afirmou que a ausência de comprovação adequada pode levar à devolução integral dos recursos, enquanto o Ministério da Cultura confirmou que apura possíveis irregularidades, mas ainda não identificou problemas financeiros graves nos projetos concluídos.