
Janja descobre a fé às vésperas da eleição
Primeira-dama desembarca em Salvador para conversar com mulheres evangélicas e tenta abrir caminho onde Lula encontra resistência
A poucos meses da eleição, a primeira-dama Janja da Silva decidiu intensificar sua agenda religiosa e foi a Salvador, nesta quinta-feira (14), para se reunir com mulheres evangélicas da periferia. O gesto faz parte de uma estratégia bem calculada: quebrar a desconfiança de um dos grupos mais resistentes ao governo Lula.
A cena não passou despercebida: Janja, ao lado das ministras Margareth Menezes (Cultura), Anielle Franco (Igualdade Racial) e da primeira-dama da Bahia, Tatiana Velloso, buscava ouvir as demandas das mulheres e, ao mesmo tempo, mostrar que também pode falar a linguagem da fé. Tudo isso enquanto o Planalto avalia novos encontros do mesmo tipo, inclusive durante a COP 30, em Belém, no fim do ano.
Uma peregrinação política
A aproximação começou em julho, no Rio, quando Janja participou de um culto na Igreja Batista de São Cristóvão, cercada por cerca de 100 mulheres evangélicas. De lá pra cá, a agenda ganhou corpo: Salvador agora, e no radar estão também encontros no Sul e no Centro-Oeste, justamente as regiões onde o governo enfrenta mais resistência.
O discurso da primeira-dama segue uma linha clara: ouvir relatos de vida, abrir espaço para demandas sociais e tentar mostrar empatia. Ela responde perguntas, fala de políticas públicas e reforça que o governo está atento às mulheres.
Entre fé e conveniência
Mas o timing não passa despercebido. Para pastoras e lideranças, não se trata de Janja frequentar o candomblé ou ser católica: a crítica é a sensação de que esse “diálogo inter-religioso” aparece apenas em ano eleitoral.
Como resumiu a coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Nilza Valéria Zacharias:
“Nenhuma mulher é apenas evangélica. Elas estão em várias redes da sociedade, e é importante que o governo compreenda isso.”
O recado parece claro: fé não se improvisa, e campanha política com verniz religioso pode soar mais como estratégia do que devoção.