
Janja recebe título da FAO enquanto fome cresce no Brasil e brasileiros enfrentam fila por ossos
Primeira-dama é homenageada pela agência da ONU por atuação contra a fome, mas realidade social expõe contradição: milhões dependem de auxílio e muitos recorrem a doações de ossos para comer.
Em meio a um cenário social cada vez mais duro para milhões de brasileiros, a primeira-dama Rosângela da Silva, conhecida como Janja, recebeu nesta quarta-feira (4) um título honorário da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A homenagem ocorreu durante a abertura da 39ª Conferência Regional da entidade para a América Latina e o Caribe, realizada no Palácio do Itamaraty.
O reconhecimento foi entregue pelo diretor-geral da FAO, o diplomata chinês Qu Dongyu, que concedeu à primeira-dama o título de “Campeã da Igualdade Social”. A honraria tem como objetivo destacar personalidades que colaboram com iniciativas de combate à fome e à insegurança alimentar.
Segundo a organização, a função de Janja será ajudar a divulgar pesquisas e ações internacionais voltadas à erradicação da fome e da pobreza, além de ampliar a conscientização global sobre o tema.
Durante a cerimônia, a primeira-dama afirmou que pretende dar atenção especial às mulheres e meninas, que, segundo ela, são as que mais sofrem com os efeitos da fome e da insegurança alimentar.
No entanto, a homenagem levanta críticas e indignação em meio à realidade enfrentada por muitos brasileiros. Em diversas regiões do país, famílias inteiras ainda dependem de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, para conseguir colocar comida na mesa.
A contradição fica ainda mais evidente quando se observa cenas que marcaram os últimos anos: filas em açougues e centros de distribuição para receber ossos doados, algo que para muitos virou a única alternativa para preparar uma refeição. É um retrato duro de um país onde a pobreza ainda grita nas ruas.
Enquanto discursos sobre combate à fome ecoam em palácios e conferências internacionais, a realidade cotidiana de milhões de brasileiros continua marcada por dificuldades básicas. Para muitos críticos, a honraria internacional soa como um gesto simbólico distante da vida real — como celebrar a chuva enquanto parte da população ainda caminha pelo deserto da necessidade.
Assim, a homenagem à primeira-dama abre um debate inevitável: até que ponto títulos e cerimônias refletem de fato a situação de quem enfrenta diariamente o peso da desigualdade e da falta de alimento no Brasil.