
Lula acende as luzes da campanha: promessa de energia a indígenas vira prévia eleitoral no Pará
A poucos meses das eleições, presidente visita aldeia no interior do Pará, promete energia solar para mais de 4 mil famílias e lança universidade indígena — tudo sob o brilho do palanque disfarçado de solidariedade.
Nem bem o sol nasceu no Tapajós, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já estava iluminando o caminho — ou melhor, prometendo fazê-lo. Em visita à Aldeia Vista Alegre de Capixauã, na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no interior do Pará, Lula disse ter se surpreendido com a falta de energia elétrica no local. Surpreso, prometeu resolver o problema “rapidamente”.
“Eu pensei que já tinha energia, porque estou vendo uma luz acesa aqui”, disse o presidente, entre sorrisos, diante de um gerador que, ironicamente, funcionava apenas para o evento oficial. Em seguida, garantiu que “a energia é a coisa mais fácil de fazer hoje em dia”, citando placas solares e promessas tão luminosas quanto a próxima eleição.
Promessa na ponta da tomada
Lula anunciou que o governo vai levar energia elétrica a 4.338 famílias indígenas — cerca de 13 mil pessoas — que vivem em comunidades da região. A demanda foi apresentada pela cacique Irenilce Kumaruara, que recebeu o presidente com festa e discursos esperançados.
A promessa chega com um timing perfeito: em pleno ano pré-eleitoral, e a menos de um mês da COP30, que será realizada em Belém. Assim, o gesto simbólico se encaixa com precisão cirúrgica na narrativa de um governo “verde, inclusivo e preocupado com o povo”.
Universidade e palanque
Durante o encontro, Lula também anunciou a criação da Universidade Indígena, com inauguração marcada para o dia 17 de novembro, em Brasília. Segundo o presidente, a instituição permitirá que jovens indígenas estudem perto de casa, “sem precisar ir para Brasília”.
Ao lado das ministras Sônia Guajajara (Povos Indígenas), Marina Silva (Meio Ambiente) e da primeira-dama Janja da Silva, Lula reforçou o pacote de anúncios — um roteiro cuidadosamente montado entre promessas, abraços e discursos emotivos, tudo transmitido sob o sol amazônico e o olhar atento das câmeras oficiais.
Entre discursos e demarcações
A presidente da Funai, Joênia Wapichana, aproveitou o momento para garantir que as demarcações das terras Vista Alegre e Escrivão devem ser concluídas no primeiro semestre de 2026. O governo, segundo ela, já ultrapassou a meta de áreas homologadas — uma conquista que soou mais como peça de campanha do que como balanço administrativo.
Desde o início do terceiro mandato, 16 novas terras indígenas foram demarcadas. Mas, enquanto o governo se orgulha dos números, muitas aldeias seguem sem luz, sem saneamento e com promessas que se repetem a cada ciclo eleitoral — como se o fio da esperança fosse religado a cada campanha.
O brilho antes da COP30
A viagem de Lula ao Pará integra a agenda que antecede a Conferência da ONU sobre Mudança do Clima (COP30), que ocorrerá em Belém entre 10 e 21 de novembro. No sábado (1º), ele já havia participado da inauguração da ampliação do aeroporto e do porto local — obras que, curiosamente, também servem de vitrine política para o evento internacional.
Entre discursos, selfies e promessas, o presidente conseguiu o que queria: reacender os refletores sobre sua imagem — e sobre a esperança dos que ainda vivem no escuro.