
Lula chama a política de “apodrecida”, mas ignora o papel que teve no lamaçal
Em festa do PT, presidente critica o custo das eleições enquanto articula alianças e lança sua campanha pela reeleição
Durante a celebração dos 46 anos do PT, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu vestir o figurino do indignado. Do alto do palco, afirmou que a política brasileira “apodreceu” e que o processo eleitoral virou um grande balcão de negócios. O discurso até soa bonito — o problema é o mensageiro.
Lula atacou o que chamou de “mercado eleitoral”, reclamando do preço de cabos eleitorais, do custo das candidaturas e da militância paga. Disse que é uma vergonha saber quanto custa eleger um vereador ou sustentar uma campanha. Falou como se estivesse observando tudo isso de fora, como um espectador chocado, e não como alguém que governa o país pela terceira vez.
A ironia é difícil de ignorar. Enquanto condena a mercantilização da política, o presidente dá início oficial à sua pré-campanha à reeleição, costurando alianças, ampliando sua base no Congresso e negociando apoios com partidos como PSD, PDT e PCdoB — exatamente o jogo político que ele finge repudiar.
Lula ainda comparou o presente com o passado, dizendo sentir saudade da época em que campanhas eram financiadas com a venda de camisetas. Um discurso nostálgico que soa quase cínico em um sistema que ele próprio ajudou a moldar, fortalecer e ocupar com as mesmas práticas que agora critica.
Como parte da estratégia eleitoral, o governo tenta emplacar pautas populares, como o fim da escala de trabalho 6×1 e a regulação dos aplicativos. Bandeiras legítimas, sem dúvida, mas convenientemente embaladas como vitrine de campanha, não como prioridade estrutural de um país que enfrenta problemas bem mais profundos.
Antes do evento, Lula ainda promoveu um jantar com líderes da Câmara, em mais um gesto clássico da velha política que ele diz estar “apodrecida”. No discurso, crítica. Nos bastidores, articulação intensa.
No fim, fica a sensação de que o presidente aponta o dedo para um sistema do qual é protagonista central. A política pode até estar apodrecida — mas Lula fala dela como quem não sujou as mãos no processo.