
Lula e Janja sobem no palanque do MST e reforçam alinhamento ideológico
Presença do casal presidencial em encontro do movimento, com ato pró-Venezuela, provoca críticas e reacende controvérsias
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) confirmou a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e da primeira-dama Janja da Silva no 14º Encontro Nacional do movimento, que acontece em Salvador. O ponto alto da agenda será um ato político de solidariedade à Venezuela, marcado para a sexta-feira, dia da presença do presidente, com direito à participação de um representante da embaixada venezuelana.
A cena escancara, mais uma vez, a opção política do governo Lula: em vez de buscar equilíbrio institucional, o presidente escolhe se associar a um movimento historicamente ligado à ocupação de terras e a pautas ideológicas, além de endossar publicamente gestos em defesa de um regime estrangeiro acusado de autoritarismo.
Alinhamento político travestido de encontro social
Segundo o MST, Lula e Janja participarão do ato de encerramento do evento, iniciado na segunda-feira no Parque de Exposições Agropecuárias da capital baiana. O movimento define o encontro como um momento de “alinhamento político” diante do cenário nacional e internacional — uma definição que deixa claro o caráter partidário do evento, agora chancelado pela presença do chefe de Estado e da primeira-dama.
Enquanto isso, a Secretaria de Comunicação Social do Planalto evitou confirmar oficialmente a agenda de Lula para a data, numa tentativa pouco convincente de reduzir o desgaste político do gesto.
Contradição e conveniência no relacionamento com o MST
A aproximação ocorre poucos meses depois de o próprio MST divulgar uma carta pública cobrando Lula pela paralisia da reforma agrária, questionando diretamente o presidente: “Lula, cadê a reforma agrária?”. A crítica, que expôs frustração da base aliada, foi rapidamente seguida por reuniões no Palácio do Planalto e por entregas pontuais de títulos de regularização fundiária — ações vistas por críticos como respostas simbólicas, não estruturais.
Agora, Lula volta a dividir palanque com o movimento, como se as cobranças recentes nunca tivessem existido, reforçando a percepção de que a relação é sustentada mais por conveniência política do que por resultados concretos.
Solidariedade externa, problemas internos ignorados
O ato pró-Venezuela também reacende o desconforto em torno da postura internacional do governo. Embora Lula tenha evitado reconhecer oficialmente o resultado da última eleição venezuelana, acusada de fraude, ele segue criticando duramente a ação dos Estados Unidos contra o país e se colocando como defensor do regime chavista no discurso internacional.
Em artigo recente publicado no The New York Times, o presidente classificou a ofensiva americana como mais um capítulo da “erosão do direito internacional”, reforçando um discurso que ignora sistematicamente as denúncias de violações de direitos humanos na Venezuela.
Um governo que escolhe lados — e não o equilíbrio
Ao subir no palanque do MST ao lado de Janja e associar seu governo a atos de solidariedade ideológica no cenário internacional, Lula deixa claro que prefere agradar aliados históricos a exercer o papel de presidente de todos os brasileiros. O gesto não une, não pacifica e tampouco resolve os problemas estruturais do país — apenas aprofunda divisões e reforça a imagem de um governo preso ao seu núcleo ideológico.