
Lula ironiza Globo após cancelamento de debate: “Ela descobriu que não é dona de tudo”
Presidente afirma que sua ausência no debate não representou um desastre para sua campanha e diz que entrevista ao Flow Podcast teve audiência superior à de uma novela; Globo cancelou o confronto após decisões judiciais alterarem regras previamente acordadas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou um ato de campanha no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (2), para ironizar a TV Globo após o cancelamento do debate presidencial que estava marcado para a noite anterior.
Lula afirmou que sua ausência no programa, que para alguns poderia representar um problema para sua campanha, teria produzido, na verdade, um resultado negativo para a própria emissora.
“Vocês viram ontem que a minha não ida no debate da Globo, que para alguns parecia um desastre a minha não ida, o desastre foi para a Globo. Ela ontem descobriu que ela não é dona de tudo. Ontem ela descobriu que é importante respeitar as pessoas.”
A declaração foi feita durante uma caminhada da campanha “O Brasil Pronto pra Mais”, no centro do Rio de Janeiro, a três dias do primeiro turno das eleições de 2026.
Lula diz que podcast teve mais audiência que novela
Ao explicar sua decisão de não participar do debate, Lula também destacou a repercussão da entrevista concedida ao Flow Podcast no mesmo horário em que ocorreria o programa da Globo.
O presidente afirmou que a emissora estaria tentando entender o que aconteceu e disse que a entrevista teve audiência superior à de uma novela.
“A Globo está até agora pensando o que aconteceu, por que o Lula não veio ao debate, e o podcast que eu participei teve mais audiência do que a novela.”
Os números divulgados sobre a transmissão indicaram um pico de aproximadamente 1,64 milhão de aparelhos simultaneamente no canal principal do Flow. Somadas as transmissões do Flow e do canal oficial de Lula, foram cerca de 1,8 milhão de aparelhos conectados ao mesmo tempo no pico. Até a manhã de sexta-feira, as transmissões acumulavam milhões de visualizações.
Lula utilizou esses números para sustentar uma crítica mais ampla ao papel dos meios tradicionais de comunicação.
Segundo o presidente, o episódio demonstraria que o público não estaria necessariamente submetido à influência de uma única emissora.
“Não é demonstração de que, se a gente tiver coragem, se a gente tiver determinação, a gente não é manipulado pelos meios de comunicação.”
Por que o debate foi cancelado?
O debate estava marcado para quinta-feira (1º), como o último confronto entre candidatos à Presidência antes do primeiro turno.
A Globo, entretanto, cancelou o programa pouco antes do horário previsto.
Segundo a emissora, decisões judiciais tomadas às vésperas do debate alteraram regras que haviam sido previamente acordadas com os partidos e provocaram “insegurança jurídica”.
Uma das decisões foi da ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que impediu a Globo de utilizar um púlpito vazio para representar Lula, que havia informado anteriormente que não participaria do debate. A decisão também interferiu na possibilidade de os demais candidatos formularem perguntas direcionadas ao presidente ausente.
Outra mudança veio do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a inclusão do candidato Renan Santos, do partido Missão, no debate.
Antes disso, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, havia determinado a inclusão do candidato Romeu Zema (Novo).
A sequência de decisões modificou o formato do programa às vésperas de sua realização.
Flávio Bolsonaro também desistiu
Além da ausência de Lula, outro fator decisivo para o cancelamento foi a desistência do senador Flávio Bolsonaro (PL).
Flávio inicialmente havia confirmado presença no debate, mas decidiu não participar depois das mudanças determinadas judicialmente.
A saída do candidato alterou novamente a configuração do programa e contribuiu para a decisão da Globo de cancelar o confronto.
A emissora afirmou que as mudanças impostas pelas decisões judiciais interferiam nas regras previamente acordadas com os partidos.
Globo fala em interferência e liberdade de imprensa
A Globo justificou o cancelamento apontando para o conjunto de decisões judiciais.
Segundo a emissora, as determinações modificaram regras estabelecidas anteriormente e criaram uma situação de insegurança jurídica.
A empresa também sustentou que houve interferência na liberdade de imprensa e na autonomia para organizar o debate dentro das regras eleitorais previamente estabelecidas.
O episódio provocou ainda uma reação de entidades representativas do jornalismo, que criticaram o que classificaram como intervenção judicial nas regras do programa.
Assim, o cancelamento deixou de ser apenas uma questão de participação de candidatos e passou a envolver uma discussão institucional sobre os limites da Justiça Eleitoral e a autonomia das emissoras na organização de debates.
Lula transforma o episódio em argumento político
Ao comentar o caso, Lula não adotou um tom de lamentação pelo cancelamento.
Pelo contrário.
O presidente transformou a ausência no debate em argumento político contra a influência dos grandes meios de comunicação e apresentou sua participação no Flow como demonstração de que o eleitor pode buscar informação fora da televisão tradicional.
Em outro momento, Lula afirmou que os meios de comunicação não deveriam ser vistos como capazes de controlar o comportamento dos eleitores.
A declaração também se encaixa na estratégia de campanha do candidato, que tem priorizado aparições em plataformas digitais e redes sociais além dos veículos tradicionais.
A crítica de Lula à Globo
A frase “ela descobriu que não é dona de tudo” foi o trecho mais contundente do discurso.
Lula utilizou a expressão para criticar o peso histórico da Globo na comunicação brasileira e sugerir que a emissora já não possui a mesma capacidade de determinar sozinha o que será acompanhado pelo público.
A afirmação, entretanto, também pode ser analisada de outro ângulo.
O debate não foi cancelado porque a Globo simplesmente decidiu retirar Lula da programação. O encontro foi inviabilizado depois de uma sequência de acontecimentos: Lula anunciou que não participaria, decisões judiciais alteraram as regras e Flávio Bolsonaro também desistiu.
Portanto, atribuir o episódio exclusivamente à emissora ou apresentar o cancelamento como uma derrota isolada da Globo simplifica uma situação que envolveu candidatos, partidos, Justiça Eleitoral, Supremo Tribunal Federal e a própria emissora.
A questão que fica para o eleitor
O cancelamento teve uma consequência concreta: o último debate presidencial antes do primeiro turno não aconteceu.
Isso significa que eleitores deixaram de acompanhar um confronto direto entre os candidatos que estavam previstos para participar.
A discussão sobre audiência, televisão e podcasts não elimina esse fato.
O debate presidencial possui uma função específica: permitir que candidatos apresentem propostas, respondam a adversários e sejam questionados publicamente diante do eleitor.
Quando esse confronto deixa de acontecer, perde-se uma oportunidade de comparação.
Ao mesmo tempo, o episódio mostra que o ambiente de comunicação política mudou.
A entrevista de Lula no Flow alcançou números expressivos de audiência e mostrou a força das plataformas digitais. A transmissão principal chegou a mais de 1,6 milhão de aparelhos simultâneos, segundo os dados divulgados sobre o programa.
O embate entre televisão e internet
A fala de Lula também simboliza uma disputa maior entre dois modelos de comunicação.
De um lado, estão as grandes emissoras tradicionais, com décadas de presença na televisão aberta.
Do outro, podcasts, YouTube, redes sociais e plataformas digitais que permitem aos políticos falar diretamente com milhões de pessoas.
O episódio demonstra que um candidato presidencial pode hoje escolher outro canal de comunicação e alcançar uma audiência significativa sem depender exclusivamente da televisão.
Mas isso não significa que a televisão perdeu relevância.
A Globo continua sendo uma das principais emissoras do país, e o próprio cancelamento de seu debate gerou ampla repercussão nacional.
Uma frase que virou símbolo do episódio
Lula saiu do episódio com uma mensagem política clara.
Para ele, a ausência no debate não representou o desastre anunciado por seus críticos.
Na avaliação apresentada pelo próprio presidente, o episódio teria demonstrado justamente o contrário: a força da comunicação direta com o eleitor e a existência de alternativas aos grandes veículos tradicionais.
“Ela ontem descobriu que ela não é dona de tudo. Ontem ela descobriu que é importante respeitar as pessoas.”
A frase sintetizou a crítica de Lula à emissora.
Mas o caso deixa uma questão maior: o cancelamento do debate não foi apenas uma disputa entre Lula e a Globo. Foi o resultado de uma sequência de decisõe