Lula reaparece defendendo mandato no STF — justo agora que a balança pende a seu favor

Lula reaparece defendendo mandato no STF — justo agora que a balança pende a seu favor

Presidente fala em “renovação”, mas proposta soa calculada num Supremo onde ele já escolheu a maioria

Lula voltou a levantar uma velha bandeira: a criação de mandatos para ministros do Supremo Tribunal Federal. O discurso vem embalado como defesa institucional, modernização democrática e ajuste de engrenagens. Tudo muito bonito — e, curiosamente, muito oportuno.

Em entrevista ao UOL, o presidente afirmou que a ideia não tem relação com o clima tenso entre os Poderes nem com os julgamentos do 8 de janeiro. Disse também que a decisão não é dele, mas do Congresso. Ainda assim, fez questão de deixar claro que, para ele, nada é imutável — nem mesmo o STF. Quando Lula diz que “tudo pode mudar”, o detalhe que fica no ar é: mudar para quem?

O presidente lembrou que a proposta já fazia parte do programa do PT em 2018, o que ajuda a dar um verniz de coerência histórica ao argumento. Mas fora do roteiro oficial, a leitura política é inevitável. Lula governa hoje com um Supremo majoritariamente indicado por ele próprio. Ou seja: defender mandato agora soa menos como ousadia institucional e mais como movimento com o tabuleiro já montado.

Na prática, a fala passa a sensação de que a regra só merece ser discutida quando o controle está garantido. Mandato vira sinônimo de “organização”, desde que não ameace o equilíbrio atual — um equilíbrio, diga-se, bastante confortável para o Planalto.

Lula insiste que não há crise entre os Poderes e que o tema não deve ser contaminado pelo julgamento da tentativa de golpe. Mas a política raramente vive de coincidências inocentes. Quando o presidente fala em renovar o STF tendo maioria formada por suas próprias indicações, a desconfiança surge naturalmente.

No fim das contas, fica a pergunta que não aparece na entrevista, mas ecoa nos bastidores: se a proposta é tão necessária para a democracia, por que ela só ganha força quando o Supremo já está, em grande parte, alinhado ao governo?

A defesa do mandato vem embrulhada em discurso técnico, mas o cheiro é de cálculo político bem temperado.

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