
Lula recicla discurso e volta a culpar Bolsonaro pelo avanço das bets
Em tom eleitoral, presidente aponta o passado enquanto seu governo patina na fiscalização das apostas online
Em mais um discurso com forte cheiro de campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a mirar no antecessor Jair Bolsonaro para explicar problemas que hoje estão sob responsabilidade direta do seu próprio governo. Desta vez, o alvo foram as bets e os cassinos online, fenômeno que segue crescendo mesmo após dois anos de Lula no Planalto.
Segundo o presidente, foi o governo Bolsonaro que teria “levado o cassino para dentro das casas dos brasileiros”, ao permitir a expansão das plataformas de apostas. Lula afirmou que crianças e adolescentes passaram a ter contato com jogatina por meio dos celulares dos pais, enquanto a publicidade das bets domina a televisão e o futebol.
A fala, porém, ignora um detalhe inconveniente: quem governa hoje é Lula, e o avanço desenfreado do setor segue acontecendo sob sua gestão.
Discurso duro, ação tímida
O discurso do presidente está alinhado à narrativa da equipe econômica, que insiste em culpar a gestão anterior por não ter regulamentado o setor. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também já afirmou que Bolsonaro deixou de cobrar impostos das empresas de apostas.
O problema é que, na prática, a resposta do atual governo tem sido bem menos rigorosa do que o tom dos discursos sugere. Apesar da promessa de controle e arrecadação, os números mostram que, em 2025, o Ministério da Fazenda aplicou apenas duas multas a empresas de apostas legalizadas, somando R$ 729 mil — uma quantia irrisória diante de um setor que faturou cerca de R$ 40 bilhões no mesmo período.
Ou seja, muito barulho no palanque e pouco efeito real fora dele.
Impostos altos, fiscalização fraca
Em dezembro, Lula sancionou uma lei que aumentou a tributação das bets, elevando a alíquota de 12% para 15% de forma escalonada até 2028. O governo prevê arrecadar mais de R$ 22 bilhões em 2026, mas a fiscalização segue frouxa: dos 15 processos abertos contra casas de apostas no último ano, 13 terminaram apenas em advertências.
Enquanto isso, o presidente segue repetindo a mesma fórmula política: criticar Bolsonaro, transferir responsabilidades e vender a ideia de que todos os problemas são herança do passado.
Bolsonaro como muleta política
A insistência em culpar o ex-presidente já se tornou um roteiro conhecido. Sempre que surgem temas sensíveis — corrupção, violência, apostas, economia — Bolsonaro reaparece no discurso como vilão conveniente. É uma estratégia que pode funcionar no palanque, mas que pouco resolve no mundo real.
Passados mais de dois anos de governo, o discurso começa a soar cansado. Afinal, se o cassino ainda está dentro das casas dos brasileiros, a pergunta que fica é simples: até quando Lula vai governar olhando pelo retrovisor?