Macron muda o tom e admite apoiar acordo Mercosul-União Europeia: “Tenho boas expectativas, mas sigo vigilante”

Macron muda o tom e admite apoiar acordo Mercosul-União Europeia: “Tenho boas expectativas, mas sigo vigilante”

Durante a Cúpula de Líderes em Belém, o presidente francês, antes um dos maiores críticos do pacto comercial, indicou que pode dar aval à assinatura — desde que novas cláusulas de proteção ao setor agropecuário europeu sejam respeitadas.

O presidente da França, Emmanuel Macron, deu o que pode ser o sinal mais claro até agora de uma mudança de postura em relação ao acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Durante entrevista em Belém (PA), nesta quinta-feira (6), o francês — até então o principal obstáculo à assinatura do tratado — afirmou que o pacto é “positivo” e que poderá apoiá-lo, desde que as novas salvaguardas comerciais sejam implementadas de forma eficaz.

“Tenho boas expectativas, mas continuo vigilante. Quando tivermos visibilidade sobre a aplicação das salvaguardas, minha resposta será sim”, declarou Macron em resposta ao Estadão.

As salvaguardas a que ele se refere foram propostas pela Comissão Europeia, a pedido da França, e estão sendo ajustadas com os países do Mercosul. O objetivo é proteger o setor agrícola europeu, especialmente os produtores franceses, de uma possível enxurrada de produtos vindos da América do Sul.

A declaração foi feita logo após uma reunião bilateral com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a Cúpula de Líderes da COP30. Macron afirmou ter apresentado a Lula uma “agenda clara”, reforçando que a França não é contra o acordo, mas quer garantias de que ele não prejudicará os agricultores europeus.

Na véspera, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, havia se reunido com Lula e confirmado a intenção de assinar o acordo até 20 de dezembro, durante a Cúpula do Mercosul, em Brasília.

Macron, por sua vez, disse estar “otimista” com o avanço das negociações e revelou ter conversado não apenas com Lula, mas também com Javier Milei, presidente da Argentina, e com Ursula von der Leyen. Ele contou ainda que lidera uma coalizão de países europeus pedindo ajustes que permitam o destravamento definitivo do acordo.

Entre as medidas em debate, o francês citou apoio ao setor pecuário europeu e o fortalecimento da União Aduaneira — uma tentativa de garantir que os produtos importados cumpram as mesmas normas sanitárias exigidas aos produtores locais.

“Nossa União Aduaneira não é eficiente o suficiente. Muitos produtos entram no mercado europeu sem cumprir as normas. Corrigir isso é uma questão de coerência e eficácia”, explicou.

A fala surpreendeu até a imprensa francesa, acostumada a ver Macron como o principal opositor do tratado. Questionado se não estaria contradizendo suas posições anteriores, o presidente respondeu de forma firme:

“Tenho sido coerente desde o início. Quando o acordo era inaceitável, eu disse. Agora, com as novas cláusulas, ele pode ser aceitável.”

Para Macron, a questão não é apenas comercial — é também uma disputa por protagonismo dentro da Europa, que busca se equilibrar entre a abertura de mercados e a proteção de sua economia interna.

E, ao que tudo indica, o sinal verde francês para o acordo Mercosul-União Europeia pode, enfim, estar a caminho — ainda que sob uma vigilância atenta de Paris.

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