
Moraes barra saída de hacker de Araraquara e freia “saidinha” na última hora
Decisão do STF impede Walter Delgatti de deixar presídio e reacende debate sobre justiça, segurança e benefícios a condenados
O que parecia certo virou reviravolta em questão de minutos. O hacker Walter Delgatti Neto, já pronto para deixar a prisão com tornozeleira eletrônica no tornozelo, teve sua saída interrompida no último instante por decisão do ministro Alexandre de Moraes.
A cena é quase cinematográfica: fila formada, expectativa no ar e, de repente, a porta que se abriria para alguns dias de liberdade simplesmente se fecha.
Por que a saída foi barrada
Delgatti, condenado a mais de oito anos de prisão por invadir sistemas da Justiça, havia conquistado o direito ao regime semiaberto e poderia sair temporariamente entre os dias 17 e 23 de março.
Mas o benefício foi suspenso após manifestação contrária da Procuradoria-Geral da República. O argumento foi direto: faltava comprovação de um requisito básico exigido pela lei — como a participação em atividade educacional durante o período fora da prisão.
Com base nisso, Moraes decidiu interromper a liberação.
Um nome que virou símbolo de um escândalo digital
O caso de Delgatti não é comum. Ele ganhou notoriedade nacional ao se envolver em invasões a sistemas do Judiciário, incluindo estruturas ligadas ao Conselho Nacional de Justiça.
Segundo as investigações, o objetivo das ações era atingir a credibilidade das instituições e alimentar dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro — um ponto que torna o caso ainda mais sensível politicamente.
Na condenação, o Supremo Tribunal Federal considerou a gravidade dos atos e determinou pena de prisão, multa e indenização por danos coletivos.
Comportamento exemplar… e histórias controversas
Dentro do presídio de Tremembé, Delgatti manteve uma conduta considerada disciplinada, sem registros de faltas — o que ajudou na progressão de regime.
Mas, ao mesmo tempo, sua figura virou quase folclórica entre os detentos. Relatos indicam que ele costumava contar histórias exageradas sobre sua vida, como supostos contatos com celebridades como Neymar e Robinho.
Com o tempo, muitos passaram a enxergar essas narrativas com desconfiança, como se fossem capítulos de uma biografia inflada — mais próxima da ficção do que da realidade.
Defesa reage e fala em erro
A defesa de Delgatti não aceitou a decisão em silêncio. Os advogados alegam que houve falha burocrática e que a exigência apresentada não se aplicaria ao caso, já que a saída teria como finalidade visita à família — e não estudo.
Para eles, o detento cumpre todos os requisitos legais e a suspensão da “saidinha” seria injusta. Um pedido de reconsideração já foi encaminhado ao Supremo.
Entre o direito e a desconfiança
O episódio reacende um debate antigo: até que ponto benefícios como a saída temporária devem ser concedidos, especialmente em casos de grande repercussão?
De um lado, a lei prevê esses direitos como parte da ressocialização. Do outro, decisões como a de Moraes mostram que, quando há dúvidas ou riscos, o sistema pode — e vai — intervir.
No fim, o caso de Delgatti parece resumir bem o Brasil atual: uma mistura de justiça, polêmica e personagens que, por mais reais que sejam, parecem saídos de um roteiro de filme.