
“Moraes, o ‘herói’ do ano — pelo menos no universo paralelo do Financial Times”
“Enquanto a direita coleciona inquéritos, buscas, censuras e bloqueios, o ministro é celebrado lá fora como o defensor da democracia — e por aqui como o campeão do ‘rigor seletivo’”
O Financial Times decidiu coroar Alexandre de Moraes como um dos 25 nomes mais influentes de 2025, colocando-o na categoria “herói”. Sim, “herói”. A palavra que, no Brasil, virou sinônimo de alguém que passa mais tempo assinando mandados do que seguindo o rito processual básico.
Na mesma lista aparecem artistas como Rosalía e Bad Bunny, CEOs bilionários, ativistas, escritores… e, de repente, lá está ele: o ministro que virou celebridade internacional justamente enquanto metade do país o enxerga como o protagonista de uma cruzada interminável contra a direita.
O texto do Financial Times descreve Moraes como um bastião da democracia, alguém que enfrentou “tentativas de golpe”, desinformação, e que mostrou ao mundo que “a Constituição não é mera formalidade”.
Uma narrativa bonita — dessas que funcionam bem em Londres, onde ninguém viu de perto bloqueios de redes sociais, prisões preventivas intermináveis, decisões monocráticas que valem por tribunais inteiros e investigações eternas que parecem sempre “em andamento”.
A historiadora Lilia Schwarcz, que assina o texto, ainda tenta equilibrar o discurso: reconhece a “tensão entre firmeza e excesso”, menciona o poder cada vez mais centralizado e o uso de “instrumentos legais excepcionais”. Traduzindo para o português do Brasil: ele manda muito, manda sozinho e manda sempre — mas é por um ‘bom motivo’.
O jornal conclui dizendo que a influência é algo difícil de medir e que “para o bem ou para o mal”, essas 25 pessoas moldam o mundo atual.
Pois é. A pergunta é: influência para quem?
Para quem vê Moraes como o “guardião da República”, ele merece estátua. Para quem viu sua caneta pesar sempre mais sobre um lado do debate político, soa como piada pronta — daquelas com final previsível e nenhuma graça.
Enquanto isso, no Brasil, segue o enredo habitual: prisões decretadas, habeas corpus negados, pedidos ignorados e uma fila de acusados que parece não ter fim. O “herói”, segundo o Financial Times, continua firme… e cada vez mais poderoso.
E a direita? Bem, essa segue colecionando processos — e ironicamente, nem precisa de supervilão. O “herói” já dá conta do serviço.