Mudou a narrativa… ou só o personagem?

Mudou a narrativa… ou só o personagem?

Quando a homenagem é para os outros, a Justiça entra em cena

O Carnaval brasileiro sempre foi palco de irreverência, crítica social e até provocação política. Mas, curiosamente, dependendo de quem é o homenageado, o samba pode virar caso de tribunal.

Em 2006, durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o Partido dos Trabalhadores (PT) não achou nada carnavalesco um desfile da escola Leandro de Itaquera, em São Paulo. O enredo falava sobre festas populares e mencionava obras no Rio Tietê, mas no último carro alegórico surgiam referências a nomes da oposição da época.

Entre eles estavam José Serra, Geraldo Alckmin e uma homenagem póstuma a Mário Covas. Foi o suficiente para gerar indignação.

Liberdade artística… com filtro ideológico?

À época, o vereador petista Arselino Tatto recorreu à Justiça para tentar impedir que o carro alegórico desfilasse. A alegação era de que haveria “promoção pessoal de políticos” com uso de recursos públicos — já que as escolas do Grupo Especial recebiam verbas da Prefeitura.

O argumento era sério: dinheiro público não poderia servir de palanque para adversários. A preocupação com o bom uso dos recursos era, naquele momento, inegociável.

Avancemos no tempo.

Quando homenagens envolvem figuras alinhadas ao governo, o tom muda. O que antes era visto como promoção indevida passa a ser tratado como reconhecimento histórico, celebração cultural ou manifestação legítima da arte popular.

A ironia salta aos olhos: quando o samba exalta adversários, vira problema jurídico. Quando celebra aliados, vira expressão democrática.

Dois pesos, dois sambas

O debate sobre política no Carnaval é válido e necessário. Recursos públicos exigem transparência, coerência e critérios claros — independentemente de quem esteja no carro alegórico.

O que chama atenção é a mudança de postura conforme o vento político sopra. Se a regra é evitar uso indevido da festa para promoção política, que ela valha para todos. Se a arte é livre para homenagear, que também seja para todos.

No fim das contas, o Carnaval continua sendo o espelho do Brasil: cheio de brilho, paixão… e contradições.

E a narrativa? Bem, essa parece sambar conforme a bateria toca.

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