Na pré-campanha sobre neve, Lula surfa no ouro do esqui e transforma medalha em palco político

Na pré-campanha sobre neve, Lula surfa no ouro do esqui e transforma medalha em palco político

Presidente recebe Lucas Pinheiro no Planalto, posa para fotos, faz discurso patriótico e tenta pegar carona no feito histórico às vésperas do debate eleitoral

Em mais um capítulo do roteiro já conhecido de solenidades convenientes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu as portas do Palácio do Planalto nesta sexta-feira (27) para receber o esquiador Lucas Pinheiro Braathen, recém-consagrado com a primeira medalha de ouro do Brasil nas Olimpíadas de Inverno Milão–Cortina 2026.

O encontro, oficialmente descrito como uma “conversa sobre o esporte no Brasil”, soou para muitos mais como uma tentativa explícita de surfar na onda do sucesso alheio. Em plena fase de pré-campanha eleitoral, Lula fez o que sabe fazer bem: transformou uma conquista individual, construída longe do Estado brasileiro, em vitrine política no centro do poder.

Lucas, de 25 anos, fez história ao vencer a prova do slalom gigante e colocar o Brasil — país sem tradição, estrutura ou investimento consistente em esportes de inverno — no topo do pódio mundial. Um feito gigantesco, fruto de anos de carreira construída majoritariamente fora do país, longe de políticas públicas e incentivos nacionais.

Ainda assim, no Planalto, o ouro virou símbolo de discurso. Lula exaltou o “orgulho nacional”, falou em pátria, pertencimento e até deu lição de brasilidade ao atleta, afirmando que ele seria “mais brasileiro do que muita gente que mora no Brasil”. Um tom grandiloquente que contrasta com a realidade do esporte nacional, frequentemente esquecido entre cortes orçamentários e promessas recicladas.

Lucas explicou que decidiu competir pelo Brasil após uma breve aposentadoria da equipe norueguesa por se sentir livre para representar suas cores, valores e propósito. Falou em inspiração, em abrir caminhos para novas gerações e em mostrar que sonhos improváveis também podem florescer. Um discurso genuíno, pessoal — e distante do marketing político que tomou conta do encontro.

Enquanto o atleta falava de liberdade, Lula aproveitava o momento para posar ao lado do ouro olímpico, cercado por ministros, parlamentares e autoridades. Estavam presentes a primeira-dama Janja, o ministro do Esporte, André Fufuca, a ministra Gleisi Hoffmann, além de dirigentes esportivos e políticos — um cenário que lembrava mais um ato político do que uma homenagem esportiva.

A ironia é difícil de ignorar: o mesmo Estado que raramente aparece quando atletas brasileiros precisam de apoio estrutural surge com rapidez quando há medalha, holofote e câmera ligada. O ouro de Lucas virou pano de fundo para discursos otimistas sobre “fortalecimento do esporte”, enquanto modalidades inteiras seguem sobrevivendo à base de esforço individual.

Nas redes sociais, Lula celebrou o resultado como prova de que “o esporte brasileiro não tem limites”. A frase soa bonita, mas escorrega na realidade: o talento realmente não tem limites — já o apoio institucional, esse continua bastante restrito.

Lucas Pinheiro merece todas as homenagens pelo feito histórico. O que causa estranhamento é ver a medalha virar instrumento simbólico em um momento político delicado, como se o brilho do ouro pudesse, por osmose, refletir na imagem de um governo em pré-campanha.

No fim, ficou a sensação de que, enquanto o atleta venceu na neve com mérito próprio, o Planalto tentou apenas esquiar na popularidade — mesmo sem nunca ter aprendido a lidar com o frio abandono que marca o esporte brasileiro fora das fotos oficiais.

Memória quase cheia

Quando a memória estiver cheia, as respostas parecerão menos personalizadas. Faça upgrade para expandir a memória ou gerencie as existentes.

Gerenciar

Obtenha mais

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags