“O crime veste terno: STF expõe o asfalto como verdadeiro berço da criminalidade no Rio”

“O crime veste terno: STF expõe o asfalto como verdadeiro berço da criminalidade no Rio”

Em discurso aplaudido, Flávio Dino escancara o que muitos fingem não ver: o poder do crime organizado não está nos becos das favelas, mas nas avenidas bem asfaltadas — onde circula o dinheiro sujo, blindado por gravatas e conluios.

Em pleno plenário do STF, nesta quinta-feira (3), o ministro Flávio Dino quebrou o silêncio conveniente e disse o óbvio que muitos poderosos preferem esconder debaixo do tapete do asfalto: o coração do crime organizado no Rio de Janeiro não pulsa nas vielas dos morros, mas nas avenidas largas, nos bairros nobres, nos escritórios refrigerados — no asfalto.

A fala, feita durante o julgamento de diretrizes para operações policiais nas comunidades, foi recebida com aplausos. Dino fez questão de confrontar uma das narrativas mais perversas da segurança pública: a de que o crime é um problema “de pobre”. “Essa ideia de que o crime se concentra nas áreas populares do Rio de Janeiro é falsa. O que move o crime está no asfalto — onde acontece o financiamento das milícias, a lavagem de dinheiro e o verdadeiro comando”, disparou.

E ele foi além: “Segurança pública não é sair atirando a esmo. O uso da força do Estado deve ser legítimo, científico, com método”. Um tapa na cara da lógica bélica que transforma comunidades em campos de guerra enquanto os verdadeiros chefes seguem ilesos, de paletó e gravata.

STF tenta conter carnificina nas favelas

O Supremo aprovou uma série de medidas para reduzir a letalidade nas operações policiais e dar um mínimo de dignidade às forças de segurança e, principalmente, aos moradores das favelas. Entre as exigências, está a instalação obrigatória de câmeras nas viaturas e uniformes da PM e da Polícia Civil em até 180 dias. Só as atividades sigilosas da Polícia Civil foram poupadas dessa exigência.

Mesmo com avanços pontuais, o STF reconheceu o que os dados gritam há anos: há omissão do estado e violação dos direitos humanos — tanto por parte das organizações criminosas quanto pelas ações estatais.

Ainda assim, a corte evitou declarar um “estado de coisas inconstitucional”, como se o que acontece nas favelas todos os dias não fosse justamente isso: uma violação contínua dos direitos mais básicos — o de viver, de circular, de existir.

O asfalto que manda, o morro que sangra

A decisão também determinou a criação de um plano de reocupação territorial, com políticas sociais, presença permanente do poder público, e atenção especial à juventude das comunidades. Não se trata apenas de reprimir, mas de ocupar com dignidade. De trocar fuzis por escolas, medo por saúde, abandono por políticas públicas.

Além disso, o STF exigiu investigações sérias da Polícia Federal sobre o braço financeiro e internacional do crime, com participação do Coaf, da Receita e da Secretaria da Fazenda — porque, sim, o dinheiro do tráfico e das milícias não some: ele circula, compra imóveis, banca campanhas, contamina tudo.

Saúde mental para quem atira e para quem sobrevive

Por fim, foi ordenado que o estado crie um programa de saúde mental para policiais, incluindo regras para medir o uso excessivo da força. Um passo necessário diante de um sistema que enlouquece tanto quem está fardado quanto quem tenta sobreviver nas periferias sitiadas.

Também ficou definido que os vestígios dos crimes devem ser preservados, proibindo práticas bárbaras como o descarte de provas e cadáveres sob pretexto de “socorro”. O mínimo que se espera de uma operação legal é que ela não destrua a cena do crime como um trator passando por cima da verdade.

Um país que fecha os olhos para onde o crime realmente mora

Enquanto as favelas continuam sendo palco de operações violentas e mortes diárias, os verdadeiros chefes seguem impunes, porque usam perfume caro, frequentam restaurantes sofisticados e têm amigos no poder.

A fala de Flávio Dino não deveria ser aplaudida por ser ousada. Deveria ser óbvia. Mas, num país em que ser pobre ainda é tratado como sinônimo de ser suspeito, toda verdade simples soa revolucionária.

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