O voto que escapou da tropa: o único bolsonarista que virou as costas para Zambelli

O voto que escapou da tropa: o único bolsonarista que virou as costas para Zambelli

Ícaro de Valmir, o “rebelde solitário” do PL, rompeu o coro da blindagem — enquanto o resto da bancada tratava a cassação de Zambelli como uma espécie de missão sagrada.

No meio da madrugada em Brasília, enquanto a Câmara decidia se Carla Zambelli perderia ou não o mandato, o roteiro correu exatamente como o PL queria: 227 votos pela cassação, 170 contra, 10 abstenções, e Zambelli mantida no cargo, ainda que foragida. Mas entre a fileira disciplinada dos aliados, um único braço subiu contra a maré: Ícaro de Valmir (PL-SE).

Sim, um único voto.
Em um partido inteiro dedicado a proteger Zambelli como se fosse patrimônio histórico.

Ícaro, deputado de primeiro mandato e o mais jovem da Câmara, foi a exceção incômoda — aquele que expõe, sem precisar dizer palavra, a obediência automática que domina sua própria legenda.

Quem é Ícaro de Valmir?

Aos 23 anos, herdeiro de uma família que comanda prefeituras em Sergipe, Ícaro sempre foi apresentado como o “rostinho novo” do PL — uma espécie de símbolo de renovação dentro de um partido velho em práticas e manias.

Filho do prefeito Valmir de Francisquinho, e irmão de outro prefeito, Ícaro cresceu dentro do jogo político tradicional. Hoje, além de estreante, é também réu em um pedido de cassação do TRE-SE, acusado de irregularidades envolvendo a cota de gênero nas eleições de 2022. Ele recorreu e aguarda decisão no TSE.

E foi justamente esse deputado — com seus próprios problemas com a Justiça Eleitoral — quem votou pela cassação de Carla Zambelli, condenada pelo STF a 10 anos de prisão por invadir sistemas do CNJ.

Ironia pouca é bobagem.

O voto que revelou mais do que decidiu

O voto de Ícaro não salvou a reputação da Câmara nem mudou o destino de Zambelli. Mas deixou evidente algo que Brasília tenta esconder debaixo do tapete:

no PL, coragem é artigo raro — e responsabilidade, mais ainda.

Enquanto a bancada fechava questão para proteger a aliada, Ícaro fez o improvável: votou como deveria, mesmo sabendo que desagradaria à casa que lhe dá abrigo.

É pouco?
É.
Mas, no meio da lealdade cega, virou quase um ato de rebeldia.

Zambelli segue como deputada.
Ícaro segue como ponto fora da curva.
E o Brasil segue, observando essa peça repetida em que só mudam os figurantes — nunca o script.

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