
PF entra na previdência do Amapá e investiga aposta milionária no Banco Master
Operação mira presidente da Amprev, indicado por Alcolumbre, e decisões que autorizaram R$ 400 milhões em aplicações
A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta sexta-feira (6), uma operação para investigar possíveis irregularidades na gestão dos recursos da Previdência do Estado do Amapá. A ação, batizada de Operação Zona Cinzenta, apura investimentos feitos pela Amapá Previdência (Amprev) em letras financeiras emitidas pelo Banco Master.
Entre os principais alvos estão o diretor-presidente da Amprev, Jocildo Silva Lemos, e dois integrantes do comitê de investimentos: Jackson Rubens de Oliveira e José Milton Afonso Gonçalves. Eles foram responsáveis pelos votos que autorizaram as aplicações realizadas em 2024.
Ao todo, a Polícia Federal cumpriu quatro mandados de busca e apreensão, expedidos pela 4ª Vara da Justiça Federal, todos no município de Macapá. Os investigadores apuram suspeitas de gestão temerária e gestão fraudulenta dos recursos previdenciários.
Decisões rápidas e cifras altas
Documentos reunidos pela PF mostram que, em menos de 20 dias, foram aprovadas e executadas três aplicações consecutivas no Banco Master, totalizando cerca de R$ 400 milhões. As decisões ocorreram em reuniões do comitê de investimentos realizadas em julho de 2024.
Na época, Jocildo Lemos foi questionado por conselheiros da Amprev por manter o investimento mesmo diante de alertas contrários. Em resposta, afirmou que o comitê era frequentemente alvo de informações falsas e sustentou que a proposta do Banco Master era a “mais vantajosa”, por oferecer juros superiores aos de outras instituições.
Indicação política e conexões
Jocildo Lemos assumiu a presidência da Amprev em 2023, nomeado pelo governador Clécio Luís (União Brasil), mas por indicação direta do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Em eventos públicos, o próprio Lemos agradeceu ao senador pelo convite para comandar o fundo.
Além disso, a Amprev tem como conselheiro fiscal Alberto Alcolumbre, irmão do senador. Ele, no entanto, não é alvo da operação, segundo a PF.
Fundo bilionário, déficit preocupante
De acordo com o balanço de 2024, o mais recente divulgado, a previdência do Amapá possuía cerca de R$ 10 bilhões em ativos, sendo R$ 8,3 bilhões aplicados em investimentos de curto prazo. Apesar disso, o fundo apresentava um déficit de R$ 387 milhões, após descontadas as obrigações futuras com aposentadorias e pensões.
O governo do Amapá afirmou, em nota, que a Amprev mantém uma situação financeira sólida, capaz de garantir o pagamento de aproximadamente 6 mil benefícios, com equilíbrio projetado até 2059. Segundo a gestão estadual, o valor investido no Banco Master representa apenas 4,7% do patrimônio total do fundo.
Investigações se espalham pelo país
O caso do Amapá não é isolado. O Ministério Público de pelo menos seis estados investiga aplicações semelhantes feitas por fundos de previdência estaduais e municipais em títulos do Banco Master, que foi posteriormente liquidado.
A Polícia Federal segue analisando documentos e movimentações financeiras para apurar se as decisões colocaram em risco o futuro da previdência dos servidores do Amapá.