
Quando a “pesquisa milagrosa” aparece do nada… o TSE lembra que o Brasil ainda tem regra
Levantamento de empresa mexicana que colocava Flávio Bolsonaro na frente de Lula é suspenso por falta de registro — e some das redes num passe de mágica
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu cortar o mal pela raiz e mandou suspender a divulgação de uma pesquisa eleitoral que vinha circulando na internet como se fosse “a grande revelação do ano”. O levantamento apontava Flávio Bolsonaro (PL) na frente de Lula (PT) em um possível segundo turno — mas tinha um pequeno detalhe “insignificante”, né? Não estava registrado na Justiça Eleitoral, como manda a lei.
A ordem foi dada pela presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, na última sexta-feira (30/1). E o recado foi bem claro: pesquisa eleitoral não é corrente de WhatsApp, nem meme de rede social, nem “dado misterioso” que aparece do nada só porque alguém quer empurrar narrativa goela abaixo.
A tal pesquisa foi publicada pela consultoria mexicana Áltica Research na terça-feira (27/1). Segundo a empresa, o levantamento teria sido feito entre os dias 23 e 25 de janeiro, com 1.200 entrevistados em todo o Brasil. O resultado divulgado mostrava Flávio com 48% e Lula com 46%, dentro da margem de erro.
Ou seja: bastou um número “bonitinho” e pronto — já tinha gente tratando como se fosse profecia eleitoral, como se o Brasil tivesse virado laboratório e a eleição fosse um jogo de aposta.
Mas aí veio a realidade: sem registro no PesqEle, não tem conversa.
A decisão do TSE ocorreu depois de uma representação apresentada pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), que apontou que a empresa divulgou percentuais, cenários e projeções sobre a eleição presidencial sem cumprir o requisito básico exigido pela legislação brasileira.
E o mais curioso — ou previsível — é que, depois da confusão, a empresa apagou a pesquisa das redes sociais. Engraçado como essas “pesquisas bombásticas” têm sempre a mesma coragem: aparecem com força total… e somem na primeira luz de fiscalização.
Ao analisar o caso, Cármen Lúcia destacou que a ausência de registro e a circulação em ambiente digital representam risco direto à formação da opinião pública, já que esse tipo de material pode influenciar o eleitorado de forma desleal.
A ministra ainda reforçou o óbvio que muita gente finge esquecer: empresa estrangeira também tem que seguir as regras do Brasil se quer interferir, direta ou indiretamente, no processo eleitoral. Não existe isso de “sou de fora, então posso tudo”.
Pela legislação eleitoral, qualquer pesquisa sobre eleições precisa ser registrada com pelo menos cinco dias de antecedência, trazendo informações como metodologia, período de coleta, amostragem, margem de erro e responsável técnico.
Ou seja: não é só jogar um gráfico na internet e esperar que o povo engula.
Com a liminar, a empresa foi obrigada a interromper a divulgação. E a Lei das Eleições ainda prevê multa que pode chegar a R$ 106 mil.
O caso seguirá em análise, agora sob relatoria da ministra Vera Lúcia, quando o recesso forense terminar. A empresa foi notificada para se defender em dois dias e o Ministério Público Eleitoral foi chamado a se manifestar.
No fim das contas, ficou a lição: no Brasil, até “pesquisa que favorece político” precisa ter documento, registro e responsabilidade. Porque democracia não pode virar palco de truque barato — e eleitor não é plateia pra ilusionismo eleitoral.