Quando a toga atropela o voto: Zambelli renuncia em meio à ofensiva do Supremo

Quando a toga atropela o voto: Zambelli renuncia em meio à ofensiva do Supremo

Após a Câmara recusar a cassação, STF liderado por Alexandre de Moraes impõe perda de mandato, escancara a crise institucional e empurra deputada à renúncia.

A renúncia de Carla Zambelli (PL-SP) neste domingo (14) não cai do céu — ela é o capítulo mais recente de uma disputa institucional que virou queda de braço. De um lado, a Câmara dos Deputados, que havia decidido não cassar o mandato. Do outro, o Supremo Tribunal Federal, sob a batuta de Alexandre de Moraes, que ignorou a decisão política do Parlamento e decretou a perda automática do cargo. No meio, a Constituição sendo esticada até o limite.

Zambelli entregou a carta e saiu do plenário pela porta estreita, afirmando ser alvo de perseguição e sustentando que sua trajetória pública não foi “forjada”. A frase final resume o clima: “a verdade foi dita, a história foi escrita e a minha consciência permanece livre”. Tradução do momento: quando a arena política é substituída pelo atalho judicial, resta pouco espaço para o contraditório.

A sequência dos fatos incomoda. Na quarta (10), a Câmara rejeita a cassação por falta de votos. Na sexta (12), o STF confirma, em plenário virtual e por unanimidade, a decisão monocrática que passa por cima da Casa legislativa. O recado é cristalino — e perigoso: o voto dos deputados vale menos que a caneta da Corte.

A liderança do PL admite que a renúncia foi estratégia de defesa. Não apaga condenações, dizem. Pode ser. Mas o ponto central não é esse. O ponto é a normalização da exceção: decisões políticas sendo substituídas por decisões judiciais, com efeitos imediatos e irreversíveis, enquanto o país assiste à erosão da separação entre os Poderes.

Críticos celebram; outros alertam. Hoje é Zambelli. Amanhã, quem? Quando o Supremo assume o papel de legislador, juiz e executor, a democracia entra em modo de risco. Repudiar crimes é dever do Estado. Atropelar o Parlamento, não.

No fim, a renúncia não resolve a crise — apenas a evidencia. O Brasil segue assistindo à judicialização máxima da política, com o STF ocupando o centro do palco e o Congresso relegado à plateia. E quando isso acontece, não há vencedor — só instituições mais frágeis.

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags