
Quando o marketing resolve militar: Havaianas escorrega na própria ideologia
Campanha com Fernanda Torres tenta lacrar, vira panfleto político e desperta revolta: quem lacra não lucra
A Havaianas, marca que durante décadas simbolizou o Brasil simples, popular e sem discurso, decidiu trocar o conforto do chinelo pela instabilidade da militância. O resultado? Uma campanha publicitária estrelada por Fernanda Torres que deixou de vender sandálias para vender recado político — e provocou indignação, rejeição e pedidos de boicote.
No comercial, a atriz aparece dizendo que não deseja que o público comece 2026 “com o pé direito”, mas sim “com os dois pés”. A frase, vendida como criativa e descolada, soou para muitos como uma ironia ideológica mal disfarçada. Não demorou para que o recado fosse interpretado como provocação política — e aí a propaganda deixou de ser só propaganda.
A escolha de Fernanda Torres, figura pública associada a posições políticas bem definidas, apenas reforçou a percepção de que a Havaianas resolveu sair do armário ideológico. O que antes era um chinelo neutro, agora parece querer ensinar como o brasileiro deve pensar, agir e até interpretar uma simples expressão popular.
O repúdio veio rápido. Parlamentares e influenciadores de direita reagiram com críticas duras, acusando a marca de transformar um produto popular em panfleto ideológico. Para muitos, a Havaianas cruzou uma linha perigosa: abandonou o consumidor comum para agradar bolhas políticas.
A ironia é inevitável. Uma marca que sempre se orgulhou de dizer que “todo mundo usa” agora parece confortável em excluir — e até provocar — uma parte significativa do próprio público. Em vez de unir, dividiu. Em vez de vender, militou. Em vez de calçar, escorregou.
Fernanda Torres, por sua vez, também não escapou das críticas. Ao aceitar protagonizar uma campanha com esse tom, deixou de ser apenas atriz e assumiu, ainda que indiretamente, o papel de símbolo de uma escolha ideológica que muitos consumidores rejeitam. Arte é uma coisa. Publicidade travestida de provocação política é outra bem diferente.
Até agora, nem a empresa nem a atriz se manifestaram. O silêncio, nesse caso, fala alto. Talvez porque admitir o erro seja mais difícil do que lacrar em 30 segundos de comercial.
A lição é antiga, mas parece que algumas marcas insistem em ignorar: consumidor quer produto, não sermão. Quer conforto, não provocação. Quer identidade, não doutrinação.
No fim das contas, fica o aviso que o mercado já conhece — e que a Havaianas resolveu testar da pior forma:
quem lacra, não lucra.