
Quando o samba vira palanque
Homenagem a Lula no Carnaval levanta dúvidas sobre dinheiro público, silêncio seletivo e enredos convenientes
Enquanto o Brasil convive com escândalos recentes, investigações bilionárias e estatais em dificuldade, o Carnaval do Rio de Janeiro promete abrir alas para mais um capítulo da política misturada ao samba. A Acadêmicos de Niterói anunciou que vai homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu desfile de 2026 — e, como detalhe nada discreto, a neta do presidente, Bia Lula, confirmou presença na avenida.
A escola levará para a Sapucaí o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, exaltando a trajetória do líder petista. A pergunta que fica no ar é simples, mas incômoda: o samba vai cantar só a “esperança” ou vai passar longe dos episódios menos poéticos da história recente?
Afinal, será que haverá espaço para lembrar escândalos envolvendo o INSS, o caso do Banco Master, denúncias sobre estatais deficitárias ou parentes do presidente citados em investigações? Ou o desfile seguirá a velha tradição do brilho seletivo, onde só entra no carro alegórico o que convém?
Bia Lula esteve no barracão da escola, na Cidade do Samba, onde foi recebida com todas as honras pela cúpula da agremiação. O clima foi de celebração, sorrisos e fotos oficiais — um roteiro já conhecido quando política, família presidencial e visibilidade pública se encontram.
Vale lembrar que, em agosto, Lula já havia recebido a camisa da Acadêmicos de Niterói durante um evento do PT, reforçando a proximidade entre o governo e a escola. Uma aproximação que levanta outra questão inevitável: em tempos de recursos públicos escassos, é legítimo que uma escola de samba homenageie um presidente cujo governo mantém relações diretas com verbas, incentivos e políticas culturais?
O enredo, assinado pelo carnavalesco Tiago Martins e pelo enredista Igor Ricardo, promete contar a história do “operário que virou presidente”. Uma narrativa conhecida, repetida e celebrada há décadas. O que talvez não esteja no roteiro são os capítulos mais recentes — aqueles que não rimam com esperança, nem combinam com fantasia.
No fim das contas, o Carnaval segue sendo palco de alegria, mas também de escolhas. E, neste desfile, a escolha parece clara: destacar o mito, esconder os conflitos e deixar os escândalos fora da avenida. Porque, pelo visto, alguns temas não dão samba — especialmente quando envolvem poder, família e dinheiro público.