Quando o sigilo vira peneira: família de ministro do STF entra na mira do vazamento fiscal

Quando o sigilo vira peneira: família de ministro do STF entra na mira do vazamento fiscal

Filho de Luiz Fux tem dados acessados ilegalmente na Receita, ampliando a lista de parentes de ministros atingidos por um escândalo que expõe rachaduras no coração do Estado

O cerco em torno das violações de dados fiscais envolvendo autoridades do Judiciário ganhou mais um capítulo sensível — e constrangedor. O advogado Rodrigo Fux, filho do ministro Supremo Tribunal Federal Luiz Fux, teve informações sigilosas acessadas de forma ilegal nos sistemas da Receita Federal.

Com isso, Rodrigo se torna o terceiro familiar direto de ministro do STF a aparecer na investigação que apura o uso indevido de dados protegidos por sigilo fiscal. Antes dele, surgiram os casos envolvendo a esposa do ministro Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, e uma ex-enteada do decano Gilmar Mendes.

A identificação do acesso irregular aos dados do filho de Fux só veio à tona após uma determinação direta de Alexandre de Moraes para que a Receita realizasse uma varredura interna em seus sistemas, em busca da origem de possíveis vazamentos. A apuração corre sob sigilo e foi anexada ao inquérito das fake news, aberto em 2019, que investiga ataques, ameaças e ações clandestinas contra integrantes da Corte.

Segundo informações obtidas por investigadores, o rastreamento inicial indica que cerca de cem pessoas podem ter tido dados fiscais consultados de maneira indevida — um número que assusta e reforça a dimensão do problema. Não se trata de um deslize pontual, mas de um padrão que levanta suspeitas sobre o uso político e estratégico de informações sensíveis.

No desdobramento mais recente, quatro servidores da Receita Federal se tornaram alvo de mandados de busca e apreensão em uma operação conduzida pela Polícia Federal. Eles foram afastados de suas funções, proibidos de acessar sistemas oficiais, impedidos de entrar nas dependências dos órgãos públicos e tiveram os passaportes recolhidos — um pacote de medidas que sinaliza a gravidade das suspeitas.

Um desses servidores, Ricardo Mansano de Moraes, acabou exonerado do cargo após ser apontado como responsável por acessar dados ligados à ex-enteada de Gilmar Mendes. Em depoimento, admitiu erro com a frase curta e pesada: “Fiz burrada”. Agora, responde sob monitoramento eletrônico, enquanto sua defesa tenta sustentar a tese de acesso acidental.

O caso, no entanto, já extrapolou o campo técnico e entrou no terreno político. O presidente da associação nacional dos auditores fiscais chegou a acusar o STF de usar a Receita como cortina de fumaça para desviar o foco de investigações envolvendo o sistema financeiro e o Banco Master — argumento que adiciona ainda mais tensão ao cenário.

No fim das contas, o episódio deixa uma pergunta incômoda no ar: se nem ministros da mais alta Corte do país conseguem blindar seus familiares contra violações de sigilo, o que sobra para o cidadão comum? Quando o Estado, que deveria proteger dados, passa a ser suspeito de espioná-los, a confiança pública sai ainda mais ferida — e o silêncio oficial só amplia o desconforto.

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