
Rio em Guerra: Megaoperação no Alemão e na Penha deixa 22 mortos e escancara o poder do tráfico
Duas das maiores comunidades do Rio viraram cenário de guerra nesta terça; ação das polícias Civil e Militar prendeu 81 pessoas e apreendeu 42 fuzis, mas também deixou dois policiais mortos e moradores feridos.
Uma operação de guerra tomou conta da Zona Norte do Rio na manhã desta terça-feira (28). As polícias Civil e Militar deflagraram uma megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão, com o objetivo de frear o avanço do Comando Vermelho (CV) — e o saldo foi sangrento: 22 mortos, entre eles dois policiais civis, e ao menos oito agentes feridos.
De acordo com a Polícia Civil, 20 suspeitos foram mortos, incluindo dois homens vindos da Bahia. Quatro moradores também foram atingidos durante o confronto, em meio a uma ação que mobilizou cerca de 2,5 mil policiais e promotores do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado). Até o fim da manhã, 81 pessoas haviam sido presas e 42 fuzis apreendidos.
O foco da operação era prender 30 integrantes do CV vindos de outros estados, escondidos nas favelas e apontados como parte do plano de expansão da facção pelo país.
Drones, granadas e o retrato de uma guerra
Em uma cena que mais parecia saída de um campo de batalha, traficantes usaram drones para lançar granadas contra equipes do Bope e da Core — algo inédito até então nas operações do Rio. O governador Cláudio Castro classificou o episódio como “uma guerra que já ultrapassou os limites da segurança pública”.
“O Rio está sozinho nessa guerra. Isso não é mais uma questão de polícia, é um caso de Estado. Precisamos do apoio das Forças Armadas”, declarou Castro, revelando que teve negado três pedidos de ajuda com blindados da Marinha e do Exército.
O governador também alertou para o risco de retaliações violentas do tráfico após as apreensões e mortes registradas.
Quem são as vítimas
Entre os mortos estão os policiais civis Marcos Vinícius Cardoso Carvalho, conhecido como “Máskara”, e outro agente da 39ª DP (Pavuna).
Outros três policiais civis e cinco militares ficaram feridos. Quatro moradores — entre eles uma mulher atingida dentro de uma academia — também foram baleados, mas estão em estado estável.
O poder do CV e a resposta do Estado
As investigações apontam Edgard Alves de Andrade, o “Doca”, como principal líder do Comando Vermelho na Penha. Um de seus operadores financeiros foi preso na operação, junto com Thiago do Nascimento Mendes, o “Belão do Quitungo”, apontado como braço armado da quadrilha.
Os promotores do Gaeco informaram que foram cumpridos 51 mandados de prisão e que 67 pessoas foram denunciadas por associação ao tráfico, além de três por tortura.
Favelas sitiadas e rotina paralisada
Enquanto o confronto se desenrolava, moradores relatavam nas redes sociais horas de pânico: tiroteios intensos, ônibus queimados, barricadas em chamas e escolas fechadas. Colunas de fumaça podiam ser vistas de longe, e até um carro foi incendiado e usado como bloqueio em uma das vias do Complexo do Alemão.
A guerra pelo controle do território entre o CV e o Estado transformou duas das maiores comunidades do Rio em zonas de exclusão, onde o som dos tiros substitui o das vozes — e onde a paz parece, mais uma vez, adiada.