Sair da favela virou ameaça de morte: “Se mudar, a gente te acha”

Sair da favela virou ameaça de morte: “Se mudar, a gente te acha”

Moradores do Moinho relatam chantagens do PCC para barrar mudança para a CDHU. Polícia e Ministério Público investigam esquema de extorsão e terror imposto por facção criminosa.

Trocar a favela por um lar digno virou, para muitas famílias da Favela do Moinho, uma sentença de medo. Quem sonha com uma chave nova nas mãos, na verdade, recebe promessas de vingança e cobranças de até R$ 100 mil para não ser “riscado do mapa”. “A gente está sendo ameaçado: ‘Vou atrás de você e vou te achar’”, contou uma ex-moradora, sob sigilo, em depoimento entregue à Polícia Civil de São Paulo.

A denúncia se soma a um inquérito que apura como membros do Primeiro Comando da Capital (PCC), incluindo enviados de uma das principais lideranças da facção, vêm exigindo parte do valor dos apartamentos oferecidos pelo governo paulista por meio da CDHU. Quem não paga, é perseguido. Quem fala, teme ser o próximo alvo.

Pagar para sair ou sair correndo

A lógica da ameaça é clara: os traficantes dizem que, ao deixar a favela, os moradores estariam provocando a “descaracterização” dos imóveis da região — muitos deles controlados por criminosos e alugados por até R$ 700. A conta, então, chega pesada: ou paga-se uma “multa” para sair ou entrega-se parte do imóvel no futuro.

Em meio ao cerco, famílias têm fugido às pressas, recusando até ajuda oficial para a mudança. Das 405 famílias que deixaram o Moinho até agora, 222 preferiram não depender do transporte oferecido pela CDHU. Muitas saíram na surdina, carregando seus móveis em silêncio para evitar represálias.

Facção, violência e um líder com sobrenome do Moinho

O pivô do terror na região é Leonardo Moja, o “Leo do Moinho”. Acusado de chefiar o tráfico, controlar imóveis, participar de assassinatos e manter braços armados na comunidade, ele já foi condenado a mais de 25 anos de prisão. Mesmo atrás das grades, Leo continua sendo peça-chave na organização — segundo o Ministério Público, sua família se aproveitou da ausência do Estado para dominar o território e influenciar moradores.

Em um dos casos mais brutais atribuídos a ele, um usuário de drogas foi esfaqueado, jogado em um matagal e queimado. Duas testemunhas do crime foram assassinadas antes do julgamento.

Monitoramento, desmanches e aliança com milícias

As investigações apontam que o “QG” de Leo do Moinho controlava também o tráfico na Cracolândia e que ele usava uma rede de Guardas Civis Metropolitanos (GCMs) para espionar o sistema de comunicação da polícia. Em outra frente, a facção se infiltrou em desmanches de veículos no centro de São Paulo. Um dos comparsas de Leo chegou a ser citado como elo entre o PCC e a Máfia Chinesa.

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