Sombra da Venezuela? Preocupação com rumo político do Brasil cresce após reação dos EUA a STF e Lula

Sombra da Venezuela? Preocupação com rumo político do Brasil cresce após reação dos EUA a STF e Lula

Críticas internacionais e aproximação com regimes autoritários reforçam temor de que país esteja trilhando caminho semelhante ao da Venezuela. Pressões internas, no entanto, podem conter radicalização.

O temor de que o Brasil esteja se transformando em uma nova Venezuela voltou com força à cena política após uma carta enviada pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao governo Lula. No texto, Trump criticou diretamente o Supremo Tribunal Federal (STF) e fez alertas sobre a condução política brasileira. A mensagem acendeu novamente um debate que antes era visto por muitos como alarmismo da oposição: o de que o país está enveredando por uma trilha autoritária.

Desde 2023, o cenário institucional brasileiro passou a ser marcado por um protagonismo inédito do Judiciário, com apoio do Executivo e pouca resistência do Congresso. Para observadores internacionais, esse arranjo começa a se parecer com os adotados por regimes autoritários mundo afora.

As críticas à postura do STF têm ganhado espaço não só entre políticos estrangeiros como Trump, mas também na mídia internacional. Decisões como a suspensão da plataforma X (antigo Twitter) e a tentativa de regular rigidamente a internet colocaram o Brasil sob desconfiança. Nos EUA, parlamentares discutem possíveis sanções contra o país, e a Espanha já se recusou a extraditar o jornalista Oswaldo Eustáquio, contrariando o STF.

Enquanto isso, Lula se aproxima de regimes como Irã, China, Rússia e Venezuela – o que levanta ainda mais dúvidas sobre o comprometimento do governo com valores democráticos. “Estamos nos venezuelando”, afirmou a economista Marina Helena, candidata à Prefeitura de São Paulo. Já o deputado André Fernandes declarou: “O governo Lula é uma vergonha mundial que nos empurra rumo ao totalitarismo latino-americano”.

Sanções internacionais: risco de aprofundar o autoritarismo

Apesar das críticas, analistas alertam que sanções externas, se aplicadas isoladamente, dificilmente forçam recuos. Pelo contrário: podem alimentar o discurso interno de perseguição. O cientista político Ricardo Caldas lembra que o bloqueio norte-americano a Cuba nunca resultou em uma mudança de regime.

Para Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí, sanções podem ser utilizadas pelo governo como justificativa para ampliar o controle e reprimir liberdades, sob a narrativa de que há uma ameaça externa à soberania nacional. Ele alerta para a possibilidade de o governo usar esse discurso para legitimar ações repressivas, tanto nas redes sociais quanto fora delas.

Consórcio STF-Lula e a dependência de apoio interno

Segundo Gomes, Lula tem se apoiado cada vez mais em uma aliança informal com o STF, uma relação fora do padrão democrático tradicional. Com a popularidade em baixa e dificuldades de articulação no Congresso, o governo pode optar por radicalizar, num movimento de “tudo ou nada”, alerta o professor.

Nesse cenário, medidas restritivas podem vir sob o pretexto de proteger a soberania nacional contra supostos inimigos externos e seus aliados internos — que passariam de “antidemocráticos” a “antipatrióticos”.

O fator que diferencia o Brasil da Venezuela: a pressão econômica interna

Ainda assim, analistas apontam um ponto crucial que pode barrar esse avanço autoritário: o poder de setores econômicos estratégicos como o agronegócio e o mercado financeiro. Diferentemente da Venezuela, o Brasil tem forte dependência de investimentos e tecnologia dos Estados Unidos. A Faria Lima, o setor exportador e o agronegócio provavelmente pressionariam duramente o governo caso medidas autoritárias afetassem os negócios.

“Se o governo começar a causar prejuízos econômicos reais, esses setores podem se organizar politicamente para pressionar por mudanças”, diz Caldas. Já Leonardo Barreto afirma que, nesse caso, Lula teria que recuar rapidamente. “Se os setores econômicos disserem que não vão embarcar em uma aventura antiocidental, o presidente perde base de apoio e o projeto desmorona”, argumenta.

Democracia ainda respira, mas o ar está rarefeito

Para o cientista político Paulo Kramer, apesar do aumento das restrições, o Brasil ainda mantém alguma vitalidade democrática – diferente da Venezuela, onde a oposição foi praticamente silenciada. Ele vê figuras como Eduardo Bolsonaro exercendo influência junto ao governo americano, o que representa uma forma de contrapeso ao discurso oficial do Planalto.

Em sua visão, Lula prefere manter a retórica de confronto do “nós contra eles” do que adotar uma diplomacia pragmática e alinhada aos interesses nacionais. Mas a pressão interna e externa pode mudar esse jogo.

Conclusão: um Brasil entre dois caminhos

Se o Brasil está de fato se tornando uma nova Venezuela ainda é uma questão aberta. Há sinais preocupantes no campo político e institucional, mas também existem forças internas – econômicas e democráticas – capazes de frear essa tendência. O embate entre essas forças deve definir o rumo do país nos próximos anos.

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