STF entra em cena, Gilmar manda encerrar apuração e Recife vira palco de blindagem política

STF entra em cena, Gilmar manda encerrar apuração e Recife vira palco de blindagem política

Enquanto João Campos comemora e Raquel Lyra se defende, decisão do ministro no Supremo levanta suspeitas de “passar pano” e proteger poderosos

A decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), caiu como uma bomba em Pernambuco — mas não exatamente por trazer clareza. Pelo contrário: o despacho acabou alimentando a sensação de que, quando a investigação chega perto demais de quem tem influência, o sistema fecha as portas e a apuração vira poeira.

O ministro determinou o trancamento de uma investigação que envolvia três secretárias municipais do Recife, e ainda mandou que a Polícia Federal abra um inquérito para apurar o suposto monitoramento ilegal do secretário municipal Gustavo Queiroz Monteiro, chefe de Articulação Política e Social da prefeitura.

O caso virou munição para todos os lados — e, como sempre, quem assiste de fora fica com a impressão de que a política virou um ringue onde a verdade é a primeira a apanhar.

Raquel tenta se blindar: “não perseguimos ninguém”

Em vídeo publicado nas redes sociais, a governadora Raquel Lyra (PSD) afirmou que não existe orientação do governo estadual para perseguir adversários e disse que, sob sua gestão, ninguém deixará de ser investigado se houver indícios.

Ela também tentou sustentar que a Polícia Civil é uma instituição de Estado, com autonomia, e criticou o que chamou de tentativa de transformar um tema técnico em espetáculo eleitoral.

Mas esse tipo de discurso, na prática, costuma soar como aquele velho “não fui eu”, dito com cara de seriedade, enquanto a confusão só aumenta.

João Campos aproveita a brecha e joga a palavra “polícia paralela” no ventilador

Do outro lado, o prefeito João Campos (PSB) tratou a decisão como confirmação de um escândalo maior e afirmou que a PF vai investigar o que ele chamou de “polícia paralela”, supostamente montada de forma clandestina em Pernambuco.

Segundo ele, houve uso político de parte da Polícia Civil, com servidor sendo seguido, carro oficial rastreado e ações feitas sem formalização, sem boletim de ocorrência e sem inquérito — tudo “na surdina”.

Só que aqui entra o ponto mais indigesto: quando o STF interfere desse jeito, o efeito colateral é imediato. João Campos posa de vítima, Gilmar surge como “garantidor” e o resultado vira uma narrativa perfeita para quem quer se livrar do desgaste — enquanto a população fica sem resposta concreta.

A denúncia: rastreador, vigilância e grupo no WhatsApp

A denúncia que originou o caso apontou que o secretário Gustavo Queiroz Monteiro teria sido monitorado por policiais civis entre agosto e outubro de 2025, e que um rastreador teria sido instalado no veículo usado por ele. O irmão do secretário também teria sido alvo.

O secretário estadual de Defesa Social, Alessandro Carvalho, confirmou que houve monitoramento, alegando que tudo ocorreu como diligência preliminar diante de denúncia anônima sobre suposto recebimento de propina — mas afirmou que não houve abertura de inquérito porque nada ilegal foi encontrado.

Além disso, foi revelada a existência de um grupo no WhatsApp chamado “Nova Missão”, onde agentes e delegados compartilhavam informações sobre a rotina do secretário.

O “passar pano” que revolta: investigação contra secretárias encerrada

Enquanto a PF é acionada para investigar o monitoramento, Gilmar Mendes determinou que o Gaeco do Ministério Público de Pernambuco encerrasse uma investigação que mirava secretárias da gestão de João Campos.

Segundo a decisão, a apuração teria perdido o foco, adotado medidas consideradas amplas e desproporcionais, e até envolvido quebras de sigilo sem autorização judicial, além de pedidos genéricos a secretarias.

Gilmar alegou “desvio de finalidade”, falta de clareza do objeto e violação do princípio da neutralidade estatal. Também mandou o órgão evitar novas investigações sem provas e não divulgar informações sigilosas.

Mas é aí que vem o repúdio: o STF não parece preocupado em esclarecer — parece preocupado em encerrar. E quando a maior Corte do país entra para cortar caminho, a mensagem que sobra é uma só: uns são investigados, outros são protegidos.

O pior recado para o cidadão

No fim das contas, a sensação é de que Pernambuco virou cenário de um jogo onde todo mundo acusa, todo mundo se defende, e a verdade fica refém de decisões de gabinete.

E quando o STF passa a agir como “freio” seletivo, o que era para ser Justiça vira algo muito mais perigoso: blindagem com selo institucional.

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