A “criminalização” da rotina: PF e imprensa tratam listas de transmissão de Bolsonaro como se fossem ato ilícito

A “criminalização” da rotina: PF e imprensa tratam listas de transmissão de Bolsonaro como se fossem ato ilícito

Parlamentares, ministros, prefeitos, pastores e familiares aparecem em contatos do ex-presidente — mas operação tenta transformar conversas privadas em escândalo político

A Polícia Federal apresentou um relatório onde transforma uma ferramenta comum do WhatsApp em suposta prova de crime. Ao apreender o celular do ex-presidente Jair Bolsonaro, os investigadores encontraram quatro listas de transmissão — algo usado diariamente por milhões de brasileiros — e trataram isso como se fosse uma operação clandestina.

As listas, que continham 396 contatos, foram nomeadas como “Deputados”, “Senadores”, “Outros” e “Outros 2”. Entre os destinatários, estavam aliados políticos, ex-ministros, lideranças religiosas, prefeitos, empresários, familiares e até médicos e advogados. Em outras palavras: pessoas com quem qualquer líder político naturalmente manteria contato.

A seguir, alguns dos nomes citados:

  • Parlamentares: Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Eros Biondini (PL-MG).
  • Ex-ministros: Paulo Guedes, Onyx Lorenzoni.
  • Lideranças religiosas: pastor Silas Malafaia.
  • Prefeitos e políticos locais: Ricardo Nunes (MDB, prefeito de São Paulo), Ricardo Mello Araújo (PL, vice-prefeito).
  • Outros contatos: coronéis, vereadores, empresários, advogados, médicos e familiares do ex-presidente.

Apesar de ser apenas um recurso de comunicação que envia mensagens individualmente a várias pessoas ao mesmo tempo, a PF apresentou os envios de vídeos, convites para manifestações e até links de transmissões ao vivo como “descumprimento de medidas cautelares”. A imprensa, por sua vez, ecoa essa narrativa como se fosse a revelação de uma rede secreta.

Na prática, o que se vê é uma tentativa de transformar a rotina de comunicação política em “prova” de conspiração. Vídeos de manifestações em Minas, Salvador, Copacabana e na Avenida Paulista foram compartilhados e, segundo os investigadores, republicados centenas de vezes. Mas tratar o envio de mensagens como se fosse “obstrução de Justiça” soa mais como exagero judicial e criminalização seletiva do que como fato jurídico consistente.

A defesa do ex-presidente afirmou ter sido surpreendida com mais um indiciamento, agora por “coação no curso do processo” e “tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito”. Termos pesados, usados como se compartilhar um link de transmissão ao vivo fosse equivalente a um golpe armado.

No fim, o caso mostra mais sobre a sanha da PF e da imprensa em transformar qualquer ato de Bolsonaro em crime do que sobre a gravidade do conteúdo em si. Afinal, se até listas de transmissão no WhatsApp viraram motivo de escândalo, o processo deixa de parecer jurídico e passa a soar cada vez mais político.

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