
A política do “gesto conveniente”
Com eleições à vista, Lula evita favores explícitos enquanto aliados cobram contrapartidas
Nos bastidores da sucessão presidencial, o jogo é claro — ainda que o discurso tente disfarçar. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), avisou que apoio à reeleição de Lula (PT) não cai do céu: precisa de sinais práticos do governo. Nada de amor gratuito. Política, como sempre, funciona na base do “toma lá, dá cá”, ainda que todos finjam surpresa.
Em evento em João Pessoa, Motta foi direto, com aquela franqueza ensaiada que todo mundo entende. Disse que alianças não se constroem no improviso e que é preciso avaliar o que cada lado entrega. Em bom português: apoio só vem com retorno.
“A política se constrói com reciprocidade”, resumiu — uma frase elegante para algo bem menos poético.
A fala ocorreu ao lado do ministro do Turismo, durante o anúncio de recursos federais para o pré-carnaval da capital paraibana. Coincidência? Claro que não. Mas como o calendário eleitoral está logo ali, ninguém quer parecer que está usando a máquina pública para agradar aliados. Fica feio. E Lula, veterano no assunto, sabe muito bem quando acelerar e quando fingir neutralidade.
Motta ainda indicou que o Republicanos, na Paraíba, deve seguir alinhado ao grupo do governador João Azevêdo, parceiro frequente do Planalto. Ainda assim, fez questão de reforçar que tudo dependerá de mais conversas — aquelas longas, silenciosas e longe dos microfones.
“Depende do presidente e do partido do presidente”, afirmou, deixando no ar o recado: o apoio está à venda, mas o preço ainda está em negociação.
Com o primeiro turno marcado para outubro, o cenário é de cautela calculada. Lula, que sempre soube usar o poder para beneficiar aliados quando convém, agora pisa em ovos. O tempo é curto, a eleição se aproxima, e qualquer gesto fora do roteiro pode pegar mal. Afinal, em política, a hipocrisia também tem calendário.