
Abraji e Fenaj defendem jornalista após GloboNews corrigir informação sobre Nossa Senhora Aparecida
Entidades sindicais e associativas saem em defesa de Maria Cristina Fernandes após a própria GloboNews corrigir informação sobre suposta mobilização para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira; episódio levanta debate sobre responsabilidade jornalística
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) divulgaram manifestações de apoio à jornalista Maria Cristina Fernandes, após a repercussão de uma declaração feita por ela na GloboNews sobre Nossa Senhora Aparecida.

O episódio ganhou dimensão nacional porque a própria GloboNews corrigiu a informação e pediu desculpas pelo erro. Na edição do GloboNews Edição da Meia-Noite, exibida em 25 de setembro, a emissora esclareceu que o projeto mencionado havia sido apresentado em 2007 pelo então deputado federal Professor Victório Galli e acabou arquivado em 2008.
Durante o programa GloboNews Em Pauta, em 24 de setembro, Maria Cristina Fernandes havia afirmado que existiria um movimento de setores evangélicos para retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de padroeira do Brasil. A declaração também passou a circular nas redes sociais associada a Flávio Bolsonaro, embora não exista projeto de autoria dele com esse objetivo.
É justamente nesse ponto que surge a principal controvérsia.
A própria emissora reconheceu o erro
A GloboNews não deixou a informação sem resposta. A emissora publicou uma correção e pediu desculpas aos espectadores, esclarecendo que a proposta citada havia sido apresentada em dezembro de 2007 e arquivada pela Câmara dos Deputados em agosto de 2008.
Portanto, há um fato objetivo: a informação apresentada originalmente no ar foi posteriormente corrigida pela própria emissora.
Também é fato que a proposta histórica não tinha relação com uma iniciativa de Flávio Bolsonaro. O projeto que alterava a referência a Nossa Senhora Aparecida foi apresentado pelo então deputado Professor Victório Galli e acabou arquivado.
Assim, a associação que passou a circular nas redes sociais envolvendo Flávio Bolsonaro não encontra respaldo em um projeto de sua autoria.
Abraji e Fenaj defendem a jornalista
Mesmo diante da correção da emissora, a Abraji publicou uma nota de solidariedade a Maria Cristina Fernandes e afirmou repudiar ataques e tentativas de intimidação contra a jornalista. A entidade sustentou que divergências sobre o trabalho jornalístico devem ser tratadas com argumentos, e não com ataques pessoais.
A Fenaj também se manifestou em defesa da profissional, no contexto da repercussão do episódio.
A defesa das entidades, porém, não elimina uma questão que merece ser discutida: uma coisa é repudiar ataques pessoais contra uma jornalista; outra é discutir objetivamente a qualidade e a correção de uma informação jornalística.
E, nesse caso, a própria GloboNews reconheceu que precisava corrigir o que havia sido dito.
Crítica: defender jornalista não significa blindar informação errada
O episódio levanta uma discussão importante sobre os limites entre liberdade de imprensa, direito à crítica e responsabilidade jornalística.
É perfeitamente legítimo que associações de jornalistas defendam profissionais contra ameaças, perseguições ou agressões pessoais. Mas a existência de uma manifestação de solidariedade não transforma automaticamente uma informação corrigida em informação verdadeira.
A crítica feita por setores da sociedade não pode ser simplesmente classificada como ataque à imprensa quando está direcionada ao conteúdo efetivamente divulgado.
Nesse caso, a pergunta é simples: se a própria emissora reconheceu o erro e fez uma correção pública, por que a discussão sobre a informação deveria ser tratada apenas como uma questão de ataques à jornalista?
O debate deveria incluir também a responsabilidade de verificar cuidadosamente uma informação antes de apresentá-la ao público.
Nossa Senhora Aparecida entrou no centro de uma disputa política
A controvérsia ganhou força porque Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar de enorme importância religiosa e cultural no Brasil. A associação da imagem da padroeira a uma suposta iniciativa política envolvendo Flávio Bolsonaro provocou forte reação nas redes sociais.
O problema é que não havia projeto de Flávio Bolsonaro para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A proposta recuperada durante a discussão era de 2007 e havia sido arquivada em 2008.
Transformar uma proposta antiga, apresentada por outro parlamentar e posteriormente arquivada, em uma narrativa sobre uma suposta iniciativa atual de Flávio Bolsonaro exige um grau de cuidado jornalístico que, nesse episódio, acabou sendo colocado em questão pela própria correção da emissora.
O direito à crítica também faz parte do jornalismo
Há uma ironia evidente no episódio: entidades jornalísticas defendem o direito de uma jornalista não ser intimidada, enquanto parte do público reivindica justamente o direito de questionar uma informação que foi posteriormente corrigida pela própria emissora.
As duas coisas não são incompatíveis.
Repudiar ameaças, ofensas ou intimidação contra jornalistas é uma questão. Cobrar precisão, apresentar documentos, questionar uma apuração e apontar uma informação incorreta é outra.
O jornalismo não pode exigir confiança automática. A confiança é construída justamente pela capacidade de apurar, conferir, corrigir e reconhecer erros quando eles acontecem.
Neste caso, a correção da GloboNews deve ser considerada parte essencial da história. A emissora reconheceu que a informação apresentada no programa precisava ser corrigida e pediu desculpas.
Por isso, o episódio não deveria ser reduzido a uma disputa entre “jornalistas” e “críticos”. O ponto central é a responsabilidade de qualquer profissional de imprensa com a informação que chega ao público.
Defender jornalistas contra violência e intimidação é legítimo. Defender uma informação depois que ela foi oficialmente corrigida, porém, é uma discussão completamente diferente.
No caso de Nossa Senhora Aparecida, Flávio Bolsonaro e do antigo projeto de 2007, os fatos disponíveis permitem separar claramente as situações: o projeto existiu, foi apresentado em 2007 e arquivado em 2008; não era um projeto de Flávio Bolsonaro; e a GloboNews posteriormente corrigiu a informação divulgada no ar.