Agradecimento celestial em meio ao caos terreno: Galípolo louva Lula e acende sinal de alerta

Agradecimento celestial em meio ao caos terreno: Galípolo louva Lula e acende sinal de alerta

Em meio a denúncias, fraudes e investigações no Banco Master, discurso do presidente do BC soa deslocado — e desperta mais suspeitas do que confiança

No auge das investigações que cercam as fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, resolveu ir além do discurso técnico. Em tom quase devocional, agradeceu “a Deus” por estar atravessando o escândalo sob um governo Lula. A fala, feita em um evento sobre estabilidade financeira em São Paulo, não passou despercebida — e tampouco caiu bem.

Enquanto o país acompanha prisões, denúncias e uma sequência de revelações que escancaram falhas graves no sistema financeiro, o chefe da autoridade monetária optou por um gesto simbólico que, longe de tranquilizar, levanta sobrancelhas. Afinal, quando o assunto é investigação de fraudes bancárias, o que se espera é rigor institucional — não gratidão política travestida de fé.

Galípolo afirmou que Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, garantiram a autonomia do Banco Central e da Polícia Federal para conduzir as apurações. Disse que ninguém interfere, que ninguém pergunta demais, que tudo ocorre “à luz do sol”. O problema é que, diante do histórico recente de denúncias e da gravidade do caso Master, o excesso de elogios soa menos como defesa da autonomia e mais como tentativa de blindagem discursiva.

A mensagem implícita incomoda: se a autonomia é garantida por lei, por que transformá-la em favor pessoal do presidente da República? E mais — por que agradecer a Deus por isso justamente agora, quando o escândalo ganha corpo e a pressão pública aumenta?

Galípolo também argumentou que o Banco Central sofre com falta de recursos e pessoal, apesar de supervisionar cada vez mais instituições, inclusive fora do seu radar formal. Disse que o Brasil está atrasado em relação a outros países, que precisa investir em tecnologia própria, inteligência artificial e fiscalização mais profunda. Tudo isso é verdade. Mas nada disso explica o tom complacente em um momento que exigia firmeza, distanciamento político e credibilidade absoluta.

O presidente do BC ainda ressaltou que a instituição gera superávit, mas não pode usar os próprios recursos porque eles são transferidos ao Tesouro Nacional. Mais uma vez, o discurso técnico se mistura com o político, criando a sensação de que o Banco Central pede compreensão quando deveria oferecer respostas claras.

No meio de tudo isso, fica a pergunta que não quer calar: diante de tantas denúncias, prisões e suspeitas envolvendo o Banco Master, o país precisava mesmo de um agradecimento público ao presidente da República — e a Deus — ou precisava de menos retórica e mais transparência?

Em tempos de crise, palavras importam. E quando elas parecem fora de lugar, não fortalecem instituições. Pelo contrário: alimentam a desconfiança de um sistema que já está sob suspeita.

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