
Banco Central entra em cena para confirmar versão de Moraes — e levanta sobrancelhas
Nota enxuta reforça discurso oficial sobre Lei Magnitsky, enquanto silêncio sobre o Banco Master chama atenção
O Banco Central resolveu falar — mas falou pouco. Em uma nota curta, quase telegráfica, a autoridade monetária confirmou a versão apresentada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes de que as reuniões com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, trataram exclusivamente dos efeitos da Lei Magnitsky. Nada além disso. Nenhuma explicação extra. Nenhum detalhe sobre datas, locais ou duração dos encontros.
A manifestação ocorre logo após a divulgação de reportagens que apontam que Moraes teria feito pressão para que o Banco Central encontrasse uma saída para o Banco Master, instituição que acabou sendo liquidada em novembro e que está no centro de investigações da Polícia Federal por suspeitas de fraudes bilionárias. Coincidência ou necessidade de “controle de danos”, a nota oficial não menciona o Master sequer uma vez.
O comunicado do BC tem apenas duas linhas e diz, em resumo, que houve reuniões com Moraes para discutir os efeitos da aplicação da Lei Magnitsky. Ponto final. O texto foi divulgado em nome de Galípolo, sem qualquer contextualização adicional — um silêncio que, para muitos, fala mais do que longos esclarecimentos.
Moraes, por sua vez, também reafirmou que as conversas se limitaram ao impacto das sanções impostas pelo então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em julho. A lei americana, raramente aplicada a membros do Judiciário, atingiu o ministro em razão de sua atuação no processo que resultou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão. As sanções foram revogadas neste mês, mas o episódio segue rendendo desdobramentos.
Tanto a nota do ministro quanto a do Banco Central evitam cuidadosamente qualquer referência ao Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, hoje investigado pela PF. Também não explicam por que, se o assunto era apenas a Magnitsky, houve tantas conversas envolvendo autoridades financeiras de peso em tão curto espaço de tempo.
Na tentativa de reforçar a narrativa, Moraes afirmou ainda que se reuniu com dirigentes do Banco do Brasil, da Febraban, do BTG Pactual e de grandes bancos privados, sempre com o mesmo argumento: discutir as “graves consequências” da lei americana para o sistema financeiro, como a manutenção de contas, cartões e movimentações bancárias. Algumas instituições confirmaram encontros; outras preferiram não comentar.
O resultado é um roteiro já conhecido em Brasília: versões oficiais alinhadas, notas sucintas e um esforço visível para encerrar o assunto rapidamente. Ainda assim, a ausência de explicações mais detalhadas e o cuidado excessivo em não tocar no nome Banco Master alimentam a desconfiança de que há mais perguntas do que respostas.
Enquanto isso, o Banco Central parece cumprir um novo papel — não apenas o de regulador do sistema financeiro, mas também o de escudo institucional em uma crise que, ao que tudo indica, ainda está longe de terminar.