Cerimônia da isenção do IR expõe ausências e rivalidades no Planalto

Cerimônia da isenção do IR expõe ausências e rivalidades no Planalto

Sem Motta e Alcolumbre, Lula sanciona o novo limite de R$ 5 mil enquanto Lira e Renan dividem a primeira fila e plateia puxa coro político.

A solenidade que marcou a sanção da nova faixa de isenção do Imposto de Renda — que passa a contemplar quem ganha até R$ 5 mil — acabou virando um pequeno retrato da política brasileira: cadeiras vazias estratégicas, rivais sentados lado a lado (ou melhor, bem longe um do outro) e até gritos de campanha ecoando no salão.

Os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, não apareceram. As justificativas oficiais foram burocráticas, mas, para quem acompanha os bastidores de Brasília, a ausência dos dois foi percebida como mais um sintoma da tensão crescente entre o Congresso e o Planalto.

Enquanto isso, dois velhos adversários em Alagoas dividiram o protagonismo na mesa principal — cada um do seu lado do palco: Arthur Lira, relator da proposta na Câmara, e Renan Calheiros, responsável pelo texto no Senado.

Lula chegou acompanhado de ministros e foi recebido por uma plateia animada, composta principalmente por sindicalistas e movimentos sociais, que imediatamente puxou o coro: “Olê, olê, Lula lá!” — um clima quase de comício.

A primeira a falar foi Gleisi Hoffmann, encarregada agora de administrar a crise política instalada com o Legislativo. Em tom diplomático, tratou de suavizar a ausência de Motta e Alcolumbre:

— A falta dos presidentes não diminui em nada o papel decisivo que tiveram neste projeto.

Lira foi mais efusivo, elogiou Lula por cumprir promessa de campanha e fez afagos à própria articulação do governo, elogiando o trabalho de Gleisi. Mas mal terminou seu discurso e o público reagiu com o grito forte e repetitivo: “Sem anistia!”

Renan, por sua vez, não perdeu a chance de cutucar Lira. Disse representar Alagoas, lembrou do esforço para acelerar a votação no Senado — onde o texto ficou por apenas 30 dias — e deixou no ar a comparação com o tempo que Lira levou para concluir seu relatório: três meses.

Foi o suficiente para transformar uma cerimônia econômica em mais um episódio de disputa política explícita — com aplausos, farpas, câmeras e o cada-um-no-seu-lugar típico do teatro político brasileiro.

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