Brasil desafia tarifaço de Trump e aposta firme no Brics: “Não vamos nos ajoelhar”

Brasil desafia tarifaço de Trump e aposta firme no Brics: “Não vamos nos ajoelhar”

Com ameaças vindas de Washington, governo Lula amplia laços com o Brics e diz que não aceitará chantagem dos EUA; Amorim afirma que Trump age como um “imperador sem freios”.

O Brasil decidiu bater de frente com as ameaças comerciais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em vez de recuar, o governo Lula resolveu dobrar a aposta no Brics, o bloco que reúne potências como China, Rússia, Índia e outros países emergentes. A informação foi divulgada neste domingo (27) pelo jornal britânico Financial Times, que ouviu diretamente o assessor de Relações Exteriores da Presidência, Celso Amorim.

Segundo Amorim, as pressões vindas de Washington — incluindo a sobretaxa de 10% que deve atingir exportações brasileiras a partir de 1º de agosto — só reforçam o compromisso do Brasil em diversificar suas parcerias e não depender de um único país. “O que Trump está fazendo é sem precedentes, nem em tempos coloniais vimos algo parecido. Nem a União Soviética ousou tanto”, disse Amorim ao jornal.

O ex-chanceler foi além e acusou o republicano de tentar interferir diretamente na política brasileira, agindo em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, seu aliado ideológico. “Trump não tem amigos, não tem interesses — só desejos. Isso é o retrato do poder absoluto”, disparou.

Brics como alternativa real

O Brics hoje vai além de sua formação original. Além de Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul, o grupo já conta com a adesão de Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Indonésia e Emirados Árabes Unidos. Juntos, representam quase metade da população mundial e 40% da riqueza do planeta.

Apesar de muitos analistas enxergarem um viés antiocidental no bloco, Amorim afirma que o objetivo é o oposto: fortalecer o multilateralismo e equilibrar uma ordem global cada vez mais dominada pelos interesses dos EUA.

“Queremos relações com a Europa, com a Ásia, com nossos vizinhos na América do Sul. O que não queremos é viver reféns de um país só”, pontuou.

Embora a China seja hoje o principal parceiro comercial do Brasil, com US$ 94 bilhões em trocas no ano passado, o assessor negou que Pequim seja o maior beneficiário do atrito com os americanos. “Nosso objetivo é ampliar, não substituir dependências.”

Trump, tarifas e chantagem

A irritação de Trump com o Brasil explodiu após Lula defender a desdolarização do comércio internacional — ou seja, diminuir a dependência do dólar nas transações entre países. O tema foi discutido abertamente durante a última reunião do Brics, no Rio de Janeiro.

Trump respondeu com o tarifaço e afirmou que vai “acabar com o Brics” se o plano avançar. Ele também disse que o tratamento dado pela Justiça brasileira a Bolsonaro é “perseguição política” — o que Lula classificou como uma “chantagem inaceitável”.

Na última sexta-feira (25), o presidente brasileiro reagiu em evento em Osasco (SP): “Bolsonaro não é problema meu, é problema da Justiça. Trump foi enganado por uma mentira”. Lula lamentou que não haja diálogo com a Casa Branca e disse que estaria disposto a explicar a situação se Trump o procurasse diretamente.

Para enfrentar o impacto das tarifas, o governo escalou o vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, como principal negociador. Mas, enquanto isso, governadores da oposição, como Tarcísio de Freitas (SP), Ronaldo Caiado (GO) e Ratinho Jr. (PR), criticaram duramente a estratégia de Lula — sem, no entanto, confrontar a exigência de Trump sobre o caso Bolsonaro.

Nova ofensiva diplomática

Segundo Amorim, o Brasil também está ampliando sua atuação em outras frentes: espera que a União Europeia ratifique o acordo com o Mercosul e já tem conversas com o Canadá sobre um possível tratado de livre comércio. O foco do último ano do governo Lula, segundo ele, será a integração regional da América do Sul — a mais desarticulada economicamente do mundo.

Em um tom direto, Amorim concluiu: “Trump não está interessado em acordos, nem em aliados. Ele quer dobrar o mundo à sua vontade. Mas o Brasil não vai se ajoelhar.”

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