Consultoria fantasma de R$ 371 milhões: o rastro do “Careca do INSS” chega até publicitária ligada ao PT

Consultoria fantasma de R$ 371 milhões: o rastro do “Careca do INSS” chega até publicitária ligada ao PT

Empresa sem site, sem estrutura e no nome de um jovem auxiliar de serviços gerais movimentou fortuna em poucos meses — e até pagamento de R$ 200 mil aparece no caminho

O escândalo do INSS segue crescendo como uma avalanche, e cada nova peça que aparece parece ainda mais absurda do que a anterior. Agora, a publicitária Danielle Miranda Fonteles, conhecida por ter atuado em campanhas do PT, apareceu ligada a uma empresa suspeita de ser consultoria de fachada e que movimentou um volume inacreditável: R$ 371 milhões em apenas seis meses.

E o mais revoltante: segundo Danielle, um pagamento de R$ 200 mil que caiu em sua conta teria sido ordenado por Antônio Carlos Camilo Antunes, o já famoso “Careca do INSS”, figura central no rastro de empresas e transações que a CPMI tenta decifrar.

A empresa no centro dessa história atende pelo nome de Spyder Consultoria e Intermediação. Só que “consultoria”, aqui, parece mais um disfarce de luxo pra um esquema gigantesco do que um negócio real.

Uma “consultoria” sem site, sem rede social e com cara de fantasma

A Spyder chama atenção por tudo aquilo que não tem:

  • não tem site próprio
  • não tem presença em redes sociais
  • não tem sede conhecida de verdade
  • e, no papel, pertence a um rapaz de 25 anos, que trabalha como auxiliar de serviços gerais em uma empresa de laticínios no interior paulista

Sim: uma empresa que, oficialmente, está no nome de alguém que não tem perfil de grande empresário… mas que, na prática, movimentou dinheiro como se fosse um conglomerado financeiro.

De acordo com informações enviadas à CPMI do INSS, a Spyder movimentou R$ 371 milhões no primeiro semestre de 2025 — um número que já é considerado uma das maiores movimentações identificadas até agora nas apurações.

E é impossível olhar isso sem sentir indignação: que tipo de “pequena empresa” movimenta centenas de milhões como se fosse normal?

O pagamento de R$ 200 mil e a ligação com Danielle Fonteles

No relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) encaminhado à CPMI, aparece uma transferência de R$ 200 mil feita pela Spyder para Danielle Fonteles.

Ao ser procurada, Danielle respondeu por meio de nota dizendo que:

  • não conhecia a Spyder
  • e que o pagamento teria sido ordenado pelo Careca do INSS
  • o valor seria parte de uma negociação envolvendo a venda de um imóvel em Trancoso, distrito de Porto Seguro (BA)

Ou seja: a empresa “fantasma” aparece como pagadora, e a explicação é que o dinheiro veio porque o Careca teria usado essa conta para pagar uma parcela.

Só que aí entra o ponto que escancara o cheiro de coisa errada: por que alguém paga uma compra de imóvel usando uma empresa sem estrutura, suspeita, e que movimenta milhões sem explicação?

A nota da defesa: imóvel em Trancoso e pagamento fora do padrão

Na nota assinada pelos advogados Maria Luiza Diniz e Michelangelo Corsetti, a defesa afirma que:

  • os R$ 200 mil foram um pagamento parcial
  • era uma das 13 parcelas previstas no contrato
  • o valor seria parte de uma parcela que deveria ser de R$ 1 milhão
  • e, diferente das parcelas anteriores, que vinham direto das contas de Antônio Antunes, essa veio da conta da Spyder
  • segundo a defesa, até o depósito, Danielle não sabia que a Spyder existia
  • a venda acabou sendo desfeita com um distrato, porque Antunes teria perdido a capacidade de pagar
  • documentos teriam sido apresentados à CPMI do INSS e ao STF

Como a CPMI chegou na Spyder: o caminho do dinheiro

A Spyder começou a ser investigada depois de receber recursos da Dinar S/A Participações, apontada como uma empresa usada pelo Careca do INSS.

E o caminho do dinheiro não para por aí:

  • A Dinar S/A recebeu milhões da Arpar, empresa que pertence ao Careca
  • A Dinar também recebeu dinheiro da Confederação Brasileira dos Trabalhadores de Pesca e Aquicultura (CBPA), outra entidade investigada na chamada “Farra do INSS”
  • E a Dinar seria apenas uma entre várias empresas usadas dentro do mesmo circuito

Ou seja: é como se o dinheiro estivesse passando por várias “camadas”, de empresa em empresa, até virar um emaranhado difícil de rastrear — o típico roteiro de esquema montado pra confundir e esconder o rastro.

E isso é repugnante, porque enquanto esse tipo de engrenagem gira, quem paga a conta é sempre o povo — especialmente quem depende do INSS e de serviços públicos que deveriam ser protegidos, não saqueados.

A explosão de dinheiro em tempo recorde

Outro detalhe que chama atenção — e que deixa tudo ainda mais suspeito:

  • a Spyder foi registrada em 13 de dezembro de 2024
  • duas semanas depois, em janeiro de 2025, já tinha movimentado mais de R$ 16 milhões
  • no primeiro semestre de 2025, o total chegou aos R$ 371 milhões

A empresa está registrada na Receita Federal em um prédio comercial no Tatuapé, Zona Leste de São Paulo.

E o capital social declarado é de apenas R$ 120 mil — o que representa 0,032% do que ela movimentou no período.

Isso é o tipo de discrepância que não é “estranha”. É o tipo de discrepância que grita: tem coisa errada aqui.

Uma “EPP” com movimentação de gigante

No registro oficial, a Spyder aparece como:

  • Limitada unipessoal
  • e enquadrada como EPP (Empresa de Pequeno Porte)

Só que uma EPP, por definição, deveria ter faturamento anual de até R$ 4,8 milhões.

Agora compare isso com os R$ 371 milhões movimentados em seis meses.

É praticamente como alguém dizer que tem uma bicicletinha e, no mês seguinte, aparecer pilotando um foguete.

A ligação com o Careca vai além do dinheiro

Danielle Fonteles, além do histórico com campanhas do PT (inclusive Dilma Rousseff em 2010), também é citada em apurações da Polícia Federal como sócia do Careca do INSS na empresa Cannabis World, ligada ao ramo de maconha medicinal em Portugal.

Mensagens reveladas apontam que Danielle teria coordenado a operação de cannabis do Careca no país.

Em uma delas, enviada em 17 de outubro de 2024, ela diz:

“Pessoal, criei esse grupo para acompanharmos passo a passo o trabalho de avaliação do Projeto Cannabis em Aveiro (Sync Nature)”.

Ou seja: não é um contato distante, não é um “conheço de vista”. A relação descrita ali parece de parceria e gestão.

O Careca se cala — como sempre

A coluna procurou a advogada Danyelle Galvão, responsável pela defesa do Careca do INSS, mas a resposta foi direta: ele não vai comentar.

E é aí que mora a revolta.

Porque quando o assunto envolve movimentações milionárias, empresas de fachada e suspeitas de fraude, o silêncio não é “prudência”. Muitas vezes, é só mais um capítulo de quem aposta que o tempo vai esfriar a indignação pública.

Só que não deveria esfriar.

No fim das contas, o que fica é o retrato de um esquema nojento

O que essa história mostra, com todos os detalhes, é um cenário que dá raiva:

  • uma empresa sem rosto e sem estrutura movimenta centenas de milhões
  • aparece no nome de um “laranja” improvável
  • transfere dinheiro para pessoas ligadas a campanhas políticas
  • e o elo que costura tudo, mais uma vez, é o Careca do INSS, que surge como figura recorrente em um labirinto de empresas e transações

É um esquema que fede a fraude, que grita “lavagem” e que escancara como o Brasil vira refém de gente que transforma o sistema em um balcão de negócios.

E enquanto isso, o cidadão que trabalha, contribui e depende do INSS é quem fica com a sensação de sempre: o povo paga, e os espertos lucram.

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