
R$ 1 milhão na Sapucaí: repasse do governo para escola que exalta Lula vira caso de Justiça
Ação popular de Kim Kataguiri e MBL questiona uso de verba pública em ano eleitoral e pede suspensão do dinheiro destinado à Acadêmicos de Niterói, que vai desfilar contando a “história do presidente”
Em pleno ano eleitoral, um repasse de R$ 1 milhão feito pelo governo federal para uma escola de samba que vai homenagear Lula na Marquês de Sapucaí virou mais um daqueles casos que fazem o brasileiro olhar e pensar: “isso aqui virou festa com o meu dinheiro?”

A polêmica agora foi parar na Justiça. O deputado federal Kim Kataguiri (União-SP) e o porta-voz do Movimento Brasil Livre (MBL), Jota Júnior, entraram com uma ação popular questionando a legalidade do repasse feito à escola Acadêmicos de Niterói, que levará para a avenida um enredo dedicado à trajetória pessoal e política do presidente.
E o motivo da revolta é simples: não é qualquer desfile, não é qualquer tema. É um espetáculo com alto alcance nacional e internacional, bancado com dinheiro público, em que o enredo coloca Lula como personagem central — e isso, no meio do calendário eleitoral, não tem como soar “neutro”.
O que está sendo questionado: dinheiro público e promoção política
Na ação, Kim e o MBL argumentam que o repasse pode configurar:
- desvio de finalidade
- violação ao princípio da impessoalidade
- afronta à moralidade administrativa
- quebra da neutralidade do Estado, especialmente por acontecer em ano de eleição
A crítica é direta: o governo estaria usando estrutura pública e dinheiro público para financiar um evento que pode virar propaganda disfarçada, com o presidente sendo exaltado em rede nacional, no maior palco cultural do país.
Para Kim Kataguiri, quando se coloca verba federal num evento desse tamanho — e ainda por cima ligado a uma homenagem ao chefe do Executivo — o risco de virar promoção pessoal é óbvio.
De onde veio o dinheiro: Embratur + Liesa + termo assinado em janeiro
O repasse faz parte de um Termo de Cooperação Técnica, assinado em 19 de janeiro de 2026, entre:
- Embratur
- Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa)
O acordo prevê um total de R$ 12 milhões, distribuídos entre as 12 escolas do Grupo Especial.
Ou seja: cada escola recebe R$ 1 milhão, incluindo a Acadêmicos de Niterói.
O governo justifica o investimento como incentivo ao turismo e à economia do Rio durante o Carnaval. Só que o problema é que, nesse caso específico, o enredo não é sobre cultura geral, história do Brasil ou uma personalidade distante — é sobre Lula, o presidente em exercício.
E aí entra o ponto que irrita: o governo age como se pudesse distribuir dinheiro público como se fosse dele, como se a verba fosse uma gentileza pessoal, um agrado, uma “ajudinha”, quando na verdade é dinheiro que sai do bolso do contribuinte.
Por que a Acadêmicos de Niterói virou o centro do escândalo
O que fez esse repasse ganhar outra dimensão foi o conteúdo do desfile.
A Acadêmicos de Niterói vai estrear no Grupo Especial com o enredo:
“Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”
O tema foi escolhido em julho de 2024, e o samba-enredo foi apresentado em 21 de setembro de 2025.
Na própria apresentação, a escola descreve Lula como:
- “o político mais bem-sucedido de seu tempo”
- e exalta sua trajetória como ex-operário e líder sindical eleito três vezes presidente
Ou seja: não é só uma “homenagem”. É uma construção narrativa com tom de consagração — e isso, em ano eleitoral, vira gasolina jogada no fogo da disputa política.
Participação de Lula, Janja e aliados aumenta suspeitas
Segundo informações citadas na ação e divulgadas pela imprensa, o enredo teria contado com:
- participação direta de Lula
- envolvimento da primeira-dama Janja
- e presença de dirigentes partidários
E isso pesa ainda mais, porque reforça a ideia de que o desfile não é apenas cultural — tem digital política, tem articulação e tem interesse por trás.
Kim resumiu a crítica com um argumento que muita gente concorda na hora:
usar dinheiro público para bancar um evento de grande visibilidade que melhora a imagem pessoal do presidente compromete a neutralidade do Estado.
E compromete mesmo. Porque quando o Estado vira ferramenta de autopromoção, o cidadão vira figurante — pagando ingresso sem querer.
O que a ação pede: suspensão, bloqueio e devolução do dinheiro
A ação popular não veio só pra fazer barulho. Ela pede medidas concretas, como:
- suspensão imediata do termo de cooperação
- bloqueio de novos repasses
- devolução dos valores já transferidos
- declaração de nulidade do ato administrativo
- responsabilização de agentes públicos envolvidos na liberação do dinheiro
Além disso, os autores pedem que o caso seja comunicado formalmente a:
- Tribunal de Contas da União (TCU)
- Ministério Público Federal (MPF)
A ideia é que os órgãos investiguem se houve irregularidade e se cabe punição administrativa ou judicial.
Até o momento, nem a Embratur nem a escola teriam se manifestado oficialmente sobre a ação e a polêmica.
A escola: estreia no Grupo Especial e enredo explosivo
A Acadêmicos de Niterói é uma escola relativamente nova:
- fundada em 2018
- sucessora da Acadêmicos do Sossego
- venceu a Série Ouro em 2025
- e por isso subiu para o Grupo Especial em 2026
Ela realiza ensaios no Clube Fluminensinho, no centro de Niterói, e tenta se consolidar como uma escola forte na elite do Carnaval carioca.
O problema é que, logo na estreia, decidiu entrar no Grupo Especial com um tema que já nasce com cara de confusão política.
Especialistas alertam: homenagem não é crime, mas pode virar propaganda
Juristas e analistas lembram que homenagear uma figura pública não é automaticamente propaganda eleitoral antecipada.
Mas o alerta é claro: dependendo do conteúdo do samba, do vídeo divulgado e do contexto, pode haver interpretação de que:
- existe promoção eleitoral
- há abuso de poder político
- ou uso de dinheiro público com finalidade eleitoral
E isso pode acabar sobrando mais para a escola do que para o presidente — a menos que se prove coordenação direta.
Ou seja: o risco jurídico existe, e o desgaste político também.
O repasse total não para no governo federal
Outro ponto que chama atenção e aumenta o desconforto é que, além do dinheiro federal, a escola também recebeu recursos de outras esferas:
- R$ 1 milhão via Embratur/Ministério da Cultura
- R$ 4 milhões da Prefeitura de Niterói
- R$ 2,15 milhões da Prefeitura do Rio de Janeiro
Mesmo que esses repasses sejam “institucionais” e dentro de regras gerais, o contexto pesa: a escola que vai homenagear Lula está recebendo uma soma enorme de recursos públicos, justamente no período em que o país começa a ferver com disputa eleitoral.
O governo tenta vender como turismo — mas o cheiro é de autopromoção
Autoridades e representantes ligados ao termo defenderam o repasse dizendo que o Carnaval:
- movimenta bilhões
- gera empregos
- projeta o Brasil no exterior
- e atrai turistas de mais de 160 países
Em 2025, os gastos do período teriam movimentado cerca de R$ 8,8 bilhões no estado do Rio.
Tudo isso é verdade: o Carnaval é uma potência econômica.
Mas o ponto aqui é outro — e é justamente o que causa indignação: o governo pode até chamar de turismo, mas o povo enxerga como propaganda.
Porque quando o dinheiro público cai justamente no colo de um desfile que vai colocar o presidente como herói do enredo, a sensação é de que:
👉 Lula liberou o repasse como se o cofre fosse dele, como se a verba fosse um presente pessoal, e não dinheiro suado de quem trabalha e paga imposto.
E isso, além de imoral, é um desrespeito com quem vive no aperto.
Resumo da revolta: carnaval com verba pública e culto político no meio do ano eleitoral
O que está em jogo não é o direito da escola desfilar, nem o Carnaval existir.
O que revolta é:
- dinheiro público bancando espetáculo
- com enredo exaltando o presidente
- em ano eleitoral
- com risco real de virar vitrine de autopromoção
E se isso não for questionado agora, vira precedente: amanhã qualquer governante vai achar normal usar o Estado como palanque — e o brasileiro vai continuar pagando a conta como sempre: calado, esmagado e enganado.