
Do Mineirão aos bastidores de Brasília: quem é Ciro, o advogado que se tornou um dos principais interlocutores de Daniel Vorcaro
Ciro Rocha Soares conheceu o dono do Banco Master em um camarote do Mineirão e, anos depois, passou a atuar como ponte entre o banqueiro e autoridades; trajetória revela uma extensa rede de relações que atravessa política, Judiciário, empresários e grandes escritórios
A crise envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master ganhou um novo personagem de destaque.
O nome agora em evidência é o do advogado Ciro Rocha Soares, descrito em reportagem do Metrópoles como um dos homens que circulavam com facilidade entre diferentes grupos de poder em Brasília.
A história chama atenção justamente pela forma como começou.
Não foi em um tribunal.
Não foi em uma audiência.
Não foi em uma reunião empresarial.
Foi em um camarote do Mineirão, em Belo Horizonte, durante uma partida entre Atlético-MG e Athletico-PR.
Segundo a reportagem, Ciro e Vorcaro se conheceram há aproximadamente seis anos. Naquele período, Vorcaro era dono de uma das faixas de patrocínio do Atlético-MG, e a apresentação teria sido feita pelo empresário Saulo Wanderley, ligado ao setor da construção civil.
A amizade evoluiu.
E a amizade acabou se transformando em relação profissional.
Ciro passou a advogar para Vorcaro e se tornou um de seus interlocutores em Brasília.
Anos depois, quando o Banco Master entrou no centro de uma gigantesca crise financeira e judicial, essa proximidade passou a ganhar outro peso.
De amigo a advogado de Vorcaro
Quando a crise do Banco Master se intensificou, Ciro Rocha Soares esteve entre os primeiros advogados a atuar na defesa de Daniel Vorcaro, ao lado do criminalista Roberto Podval.
Mas a relação profissional sofreu uma mudança quando Vorcaro decidiu negociar uma possível colaboração premiada.
Segundo o Metrópoles, Ciro deixou a defesa nesse momento porque esse tipo de estratégia não estaria de acordo com sua forma de atuação na advocacia.
A saída do processo, entretanto, não teria significado o fim da amizade.
De acordo com a reportagem, Ciro continuou afirmando a pessoas próximas que permanecia amigo de Vorcaro e que não abandonaria o banqueiro justamente durante o período mais difícil de sua vida.
Esse detalhe é importante.
Porque o caso deixou de envolver apenas uma relação tradicional entre advogado e cliente.
Passou a existir também uma relação pessoal construída ao longo de anos.
E é justamente essa proximidade que colocou Ciro no radar das investigações e das reportagens sobre os bastidores do caso Master.
O homem que fazia pontes em Brasília
A reportagem descreve Ciro como alguém conhecido na capital federal pela facilidade de circular entre diferentes grupos.
Políticos.
Advogados.
Empresários.
Magistrados.
Autoridades.
Segundo relatos mencionados pela coluna, amigos atribuem a ele uma grande capacidade de abrir portas e conseguir reuniões com autoridades.
A reportagem chega a reproduzir uma expressão utilizada por pessoas de seu círculo para descrever essa habilidade: a de que Ciro seria capaz de “vender até vento”.
É uma descrição informal, não uma acusação de crime.
Mas ajuda a explicar a reputação que o advogado teria construído ao longo dos anos.
Sua atuação não estaria limitada aos tribunais.
Ele teria desenvolvido uma rede de contatos que atravessa diferentes áreas do poder.
E, em Brasília, onde relações pessoais frequentemente se cruzam com interesses profissionais, essa capacidade de transitar entre ambientes pode representar um ativo significativo.
Uma trajetória que começou na Bahia
A história de Ciro não começou com Daniel Vorcaro.
Segundo o Metrópoles, o advogado tem raízes mineiras e baianas e começou a construir suas relações no Tribunal de Justiça da Bahia.
Uma das primeiras conexões teria ocorrido por intermédio do desembargador Carlos Alberto Dultra Cintra, que presidiu o tribunal e morreu no ano passado.
Cintra havia estudado com o pai de Ciro, o advogado Angelo Soares.
A relação entre as duas famílias teria ajudado a abrir as primeiras portas para Ciro no Judiciário baiano.
Depois de formado em Direito, ele passou por diferentes sociedades de advocacia e ganhou espaço principalmente na defesa de prefeitos e políticos.
Entre seus clientes e aliados esteve o senador Otto Alencar, do PSD da Bahia.
Segundo a reportagem, Ciro e Otto Alencar chegaram a ser amigos pessoais e vizinhos durante pelo menos 15 anos.
Foi por meio dessas conexões que sua atuação começou a alcançar Brasília.
O Tribunal Superior Eleitoral como porta de entrada
A Justiça Eleitoral teria sido uma das portas de entrada de Ciro na capital federal.
A partir daí, sua rede teria se ampliado.
O advogado passou a circular em ambientes onde se encontram políticos, magistrados, empresários e outros advogados.
Esse tipo de trânsito não é, por si só, ilegal.
Advogados naturalmente precisam conversar com autoridades.
Precisam acompanhar processos.
Precisam defender seus clientes.
Precisam buscar reuniões.
Precisam construir relações profissionais.
O problema surge quando essas relações passam a ser examinadas dentro de uma investigação que envolve dinheiro, instituições financeiras e autoridades públicas.
É nesse contexto que a trajetória de Ciro passou a chamar mais atenção.
A proximidade com Paulo Gonet
Um dos pontos mais sensíveis da reportagem é a relação de Ciro com o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Ciro teria atuado como uma espécie de ponte entre Daniel Vorcaro e Gonet.
As conversas atribuídas a Vorcaro e os relatos sobre tentativas de intermediação de encontros colocaram o advogado no centro de uma discussão que ultrapassa os limites do Banco Master.
O nome de Gonet já aparece em outras partes da crise envolvendo Vorcaro.
Por isso, a presença de Ciro nesse circuito passou a ser observada com atenção.
É preciso deixar claro, entretanto:
atuar como intermediário para solicitar ou organizar uma reunião não significa, por si só, que tenha ocorrido tráfico de influência, corrupção ou qualquer outro crime.
Para uma acusação dessa natureza ser sustentada, são necessárias provas de que houve uma vantagem indevida, uma finalidade ilícita ou uma atuação proibida.
Até aqui, a reportagem apresenta relações, contatos e tentativas de aproximação.
Isso não equivale automaticamente à comprovação de ilegalidade.
Uma fotografia da rede de poder
No ano passado, a rede de relações de Ciro também apareceu publicamente durante uma cerimônia na Assembleia Legislativa da Bahia.
Ele participou da entrega da Medalha de Cidadão Baiano a Paulo Gonet, homenagem concedida pelo deputado estadual Niltinho, do PSD da Bahia.
Na ocasião estavam presentes outras figuras políticas importantes, entre elas Otto Alencar e Jaques Wagner.
O fato, isoladamente, não representa irregularidade.
Mas ajuda a ilustrar a extensão do círculo social e político no qual Ciro circula.
É justamente essa rede que torna sua presença relevante na história de Vorcaro.
E os empresários também aparecem
A rede de relações descrita pela reportagem não termina na política ou no Judiciário.
Um dos empresários citados é Marcelo Pessoa, executivo do mercado financeiro e sócio-sênior da Galapagos Capital.
O nome de Pessoa também aparece em mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro e anexadas a relatórios da Polícia Federal.
Segundo a reportagem, Ciro chegou a tentar incluir Pessoa em uma viagem a Londres, embora a ideia teria sido barrada pelo próprio Vorcaro.
Mais uma vez, é necessário separar proximidade social de eventual irregularidade.
Ter amizade.
Participar de viagens.
Frequentar os mesmos ambientes.
Conhecer empresários.
Manter contatos políticos.
Nada disso, isoladamente, constitui crime.
O que interessa às investigações é saber se essas relações foram utilizadas para alguma finalidade ilícita.
A ilha de luxo que aparece na história
Outro detalhe chama atenção.
Marcelo Pessoa é associado à Ilha Parapituba, administrada pela Prime You, empresa que trabalha com compartilhamento de bens de luxo.
Segundo o Metrópoles, a ilha fazia parte do circuito social frequentado por Ciro.
Pessoa vendeu parte de sua participação no imóvel em 2023, mantendo duas cotas e negociando outras duas.
Uma delas teria sido adquirida pelo médico Gabriel Almeida, que posteriormente entrou no radar da Polícia Federal em uma investigação diferente.
A reportagem menciona que a ilha teria sido utilizada para apresentações e divulgação de substâncias clandestinas, segundo a investigação policial citada pelo Metrópoles.
Mas esse episódio pertence a outro contexto investigativo e não significa que Ciro tenha cometido qualquer irregularidade relacionada ao caso.
O que a informação revela é a extensão dos ambientes empresariais e sociais nos quais o advogado transitava.
O que torna Ciro importante no caso Master?
A pergunta central é justamente essa.
Por que um advogado que não é banqueiro, ministro ou procurador passou a aparecer no meio de uma das maiores crises envolvendo o sistema financeiro e as instituições brasileiras?
A resposta está na sua posição de interlocutor.
Ciro conhecia Vorcaro.
Atuou profissionalmente para ele.
Conhecia políticos.
Conhecia empresários.
Circulava em Brasília.
Tinha acesso a diferentes ambientes.
E, segundo a reportagem, teria tentado aproximar Vorcaro de autoridades.
Essa posição transforma o advogado em uma peça importante para entender como funcionava a rede de relacionamentos construída pelo dono do Banco Master.
A crise agora não envolve apenas dinheiro
O caso Banco Master começou como uma crise financeira.
Depois vieram as investigações.
As prisões.
As operações da Polícia Federal.
Os depoimentos.
As mensagens encontradas nos celulares.
As disputas entre ministros.
As discussões envolvendo a Procuradoria-Geral da República.
E agora surgem personagens que funcionavam nos bastidores das relações entre empresários e autoridades.
É uma mudança importante.
Porque, quando uma investigação financeira começa a revelar uma extensa rede de contatos, a sociedade passa a querer saber não apenas quanto dinheiro circulou, mas também quem tinha acesso a quem.
Quem conseguia marcar reuniões?
Quem fazia apresentações?
Quem aproximava empresários de autoridades?
Quem tinha acesso a ministros?
Quem conseguia entrar em determinados ambientes?
Essas perguntas não significam que toda relação seja ilegal.
Mas ajudam a reconstruir o funcionamento de uma rede de influência.
O problema brasileiro da mistura entre poder e proximidade
O caso também abre uma discussão maior sobre a cultura de relações pessoais em Brasília.
Em qualquer democracia, autoridades precisam conversar com empresários, advogados, jornalistas, parlamentares e representantes da sociedade.
Isso é normal.
O que não pode ser normal é a existência de uma estrutura em que determinados indivíduos consigam, por amizade ou proximidade, acesso privilegiado às decisões públicas.
A diferença entre interlocução legítima e tráfico de influência precisa ser estabelecida pelos fatos e pelas provas.
Não pelas manchetes.
Não pelas redes sociais.
Não por interesses partidários.
E muito menos por acusações sem comprovação.
Do camarote do Mineirão ao centro da crise
A trajetória descrita pelo Metrópoles tem uma característica que chama atenção.
Começa em um camarote de futebol.
Passa pela advocacia.
Chega à política baiana.
Avança para Brasília.
Entra nos tribunais.
Cruza empresários.
E termina, pelo menos neste momento, no centro da crise que envolve Daniel Vorcaro e o Banco Master.
É uma trajetória que mostra como as relações pessoais podem atravessar diferentes mundos.
Do esporte aos negócios.
Dos negócios à política.
Da política ao Judiciário.
E do Judiciário novamente aos grandes empresários.
Agora, as conexões precisam ser explicadas
O fato de Ciro conhecer Vorcaro, ter sido seu advogado e circular entre autoridades não permite concluir que tenha cometido qualquer crime.
Mas suas relações podem ser relevantes para a investigação justamente porque ajudam a reconstruir o ambiente no qual Daniel Vorcaro operava.
Se houve apenas amizade e atuação profissional legítima, isso precisa ficar demonstrado.
Se houve intermediação institucional regular, também.
E, se eventualmente aparecerem provas de utilização indevida dessas conexões, caberá às autoridades responsabilizar quem tiver cometido irregularidades.
Por enquanto, o que existe é uma rede de relações que merece ser examinada com cuidado.
O caso Banco Master já mostrou que a história não está restrita aos números de um banco.
Ela passa por pessoas.
Por mensagens.
Por encontros.
Por viagens.
Por escritórios de advocacia.
Por empresários.
Por políticos.
E por autoridades.
Ciro Rocha Soares aparece justamente nesse cruzamento.
Do camarote do Mineirão à ponte aérea para Brasília, sua trajetória ajuda a explicar como Daniel Vorcaro construiu relações que hoje estão sob o olhar atento da Polícia Federal, da Justiça e da opinião pública.
E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que ainda precisam ser respondidas:
até onde iam essas amizades — e onde terminava a amizade e começava a influência?