
Elogio de quem já caiu: Wesley Batista exalta Lula e tenta vender redenção
Condenado por corrupção, empresário da JBS chama de “felicidade” ter Lula na Presidência e discurso soa como piada pronta
O Brasil acordou com mais um daqueles momentos em que a realidade parece disputar espaço com a ironia. Wesley Batista, um dos donos da JBS — aquele mesmo grupo que virou sinônimo de escândalos bilionários, delações premiadas e condenações por corrupção — resolveu subir ao palco para rasgar elogios ao presidente Lula. Segundo ele, o país “tem a felicidade” de ser governado pelo petista. Difícil saber se era discurso ou stand-up político.
No evento da ApexBrasil, em Brasília, Wesley falou como se fosse uma autoridade moral sobre ética, economia e futuro do país. Elogiou a atuação internacional de Lula, agradeceu a abertura de mercados e disse que o agronegócio nunca exportou tanto. Tudo isso vindo de alguém que, junto com o irmão, ajudou a escrever alguns dos capítulos mais vergonhosos da relação promíscua entre grandes empresários e o poder político no Brasil.
O tom foi de gratidão quase emocional, como se a história recente tivesse sido convenientemente apagada. Nenhuma menção às condenações, às multas bilionárias ou aos acordos judiciais. Apenas aplausos, sorrisos e frases ensaiadas, como se o passado fosse um detalhe irrelevante — ou um incômodo melhor deixado fora do microfone.
A cena causa repúdio porque expõe o velho roteiro brasileiro: personagens marcados por corrupção reaparecem em solenidades oficiais, agora travestidos de entusiastas do desenvolvimento nacional. O discurso pode até falar em exportações, recordes e crescimento, mas o pano de fundo é o mesmo de sempre — o da hipocrisia institucionalizada.
Quando alguém que já confessou crimes contra o país se apresenta como porta-voz do “sucesso” do governo, a pergunta não é sobre números da balança comercial. É sobre até que ponto o Brasil normalizou esse teatro, onde condenados elogiam governantes e todos fingem que isso é natural.
No fim, fica a sensação amarga: a tal “felicidade” exaltada no palco parece existir apenas para quem sempre soube cair de pé, mesmo depois de afundar o país em escândalos.