
Em meio ao caos, Milei mistura política e rock no lançamento de seu novo livro
Presidente argentino tenta reviver imagem de astro rebelde enquanto enfrenta crise política, escândalos e fuga de investidores.
Em um cenário digno de espetáculo — palco escuro, imagens de bombardeios ao fundo e a plateia aos gritos — o presidente Javier Milei transformou o lançamento de seu novo livro, La Construcción del Milagro (“A Construção do Milagre”), em um verdadeiro show de rock político. Vestido de preto, o líder argentino subiu ao palco da Movistar Arena, em Buenos Aires, cantando clássicos do rock nacional e até uma canção folclórica judaica, em meio à pior crise de seu governo.
O evento, que mais parecia um comício disfarçado de show, aconteceu em um momento delicado: Milei tenta conter o desgaste político provocado pela renúncia de um candidato-chave nas eleições legislativas, acusado de ter ligações com o narcotráfico. Ao mesmo tempo, a Argentina enfrenta uma corrida cambial e incertezas econômicas, o que levou o governo a pedir ajuda financeira aos Estados Unidos.
Show, ataques e provocações
Com a voz rouca e o estilo teatral que o consagrou na campanha de 2023, Milei abriu a noite com hits como “Panic Show” e “Demoliendo Hoteles”, antes de apresentar sua “Banda Presidencial”. Depois de cerca de dez músicas, o tom mudou: o presidente passou do palco musical ao púlpito político, misturando gritos libertários com ataques à esquerda e à oposição.
“Não vamos permitir a xenofobia que a esquerda quer impor”, bradou, antes de entoar Hava Nagila, música tradicional judaica.
O público de quase 15 mil pessoas vibrou quando Milei, entre provocações, levou os presentes a cantar “Cristina Tobillera” — uma referência sarcástica à ex-presidente Cristina Kirchner, condenada por corrupção. No telão, imagens de Donald Trump e do ativista americano Charlie Kirk inflamaram ainda mais os aplausos.
Crise e culto à personalidade
O espetáculo serviu como uma tentativa de mostrar força em meio à fragilidade política. Na última semana, o Congresso argentino derrubou dois vetos presidenciais e o governo sofreu derrotas eleitorais regionais, alimentando dúvidas sobre a capacidade de Milei de manter a governabilidade.
Enquanto seus aliados exaltam o presidente como um reformador radical — um “milagreiro do livre mercado” —, a população sente o peso das medidas de austeridade. A inflação desacelerou e o governo comemora um superávit fiscal histórico, mas o custo social é alto: queda do consumo, desvalorização do peso e encarecimento da vida cotidiana.
“Achei que ele entendia de economia, mas ele não sabe nada”, lamentou um açougueiro de Buenos Aires, ecoando o sentimento de frustração que cresce nas ruas.
No fim, o “abraço libertário” que Milei recebeu de seus seguidores parece mais uma tentativa de reafirmar sua narrativa messiânica — a de um salvador incompreendido que, entre guitarras e discursos, promete reconstruir um país que continua à beira do colapso.