Empresa ligada ao lobby de Roberta Luchsinger fechou mais de R$ 81 milhões em contratos com o governo federal

Empresa ligada ao lobby de Roberta Luchsinger fechou mais de R$ 81 milhões em contratos com o governo federal

3Structure IT, comandada pelo empresário Cleber Ribas, possui contratos com órgãos da União; Polícia Federal investiga atuação de Roberta Luchsinger como intermediária e suspeita de relação societária oculta com Lulinha

A história envolvendo Roberta Luchsinger ganhou uma nova dimensão com o levantamento de contratos firmados pela empresa de tecnologia 3Structure IT com órgãos do governo federal.

Segundo levantamento publicado pelo Estadão e pelo UOL, a empresa, comandada pelo empresário Cleber Ribas de Oliveira e representada em Brasília por Roberta Luchsinger, acumulou mais de R$ 81 milhões em contratos federais. Entre os órgãos envolvidos estão o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), o Exército Brasileiro, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e o Instituto Nacional de Surdos (Ines). A estatal Telebras também contratou a empresa, embora o valor desse contrato não tenha sido informado.

O valor, isoladamente, não significa que tenha ocorrido qualquer irregularidade.

Empresas privadas podem disputar licitações e celebrar contratos regularmente com a administração pública.

O problema que levou o caso ao radar das autoridades é outro: a Polícia Federal investiga se Roberta Luchsinger utilizava sua rede de relacionamentos para aproximar empresários de integrantes do governo e facilitar negócios com órgãos federais.

É nesse ponto que contratos, reuniões, pagamentos e relações pessoais passam a fazer parte da mesma investigação.

Quem é Roberta Luchsinger

Roberta Luchsinger tornou-se conhecida nacionalmente nas últimas semanas depois que seu nome apareceu em investigações envolvendo pessoas próximas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ela é apontada pelas investigações como uma lobista que mantinha contato com empresários interessados em negócios com o governo.

Ao mesmo tempo, possui uma relação de amizade com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente.

A existência dessa amizade não constitui crime.

Da mesma maneira, atuar como lobista ou consultora não é ilegal por si só.

A questão investigada é se essa proximidade teria sido utilizada para obter vantagens indevidas ou favorecer determinadas empresas dentro da administração pública.

A empresa de Cleber Ribas

No centro dessa parte da investigação está a 3Structure IT, empresa de tecnologia especializada em serviços de informática, armazenamento e sistemas de backup.

O empresário Cleber Ribas de Oliveira é o responsável pela companhia.

Segundo o levantamento divulgado pelo UOL, a empresa possui aproximadamente R$ 81,2 milhões em contratos com órgãos federais.

Entre os contratos mais relevantes estão acordos firmados com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, que somam dezenas de milhões de reais.

Um dos contratos destacados envolve serviços de tecnologia e armazenamento de dados.

Mais de R$ 53 milhões no Ministério do Desenvolvimento

No MDS, a 3Structure firmou contratos que, segundo o levantamento, chegam a aproximadamente R$ 53,1 milhões, considerando compromissos que se estendem até 2031.

A cifra chama atenção justamente porque a Polícia Federal identificou encontros entre representantes da empresa e integrantes do ministério.

Segundo registros de entrada obtidos pelo UOL, Cleber Ribas esteve no ministério em pelo menos duas ocasiões em 2024.

Em 8 de maio, ele foi ao MDS para uma reunião com o então secretário-executivo Rannier Ciriaco.

Em 3 de julho, voltou ao ministério e se encontrou com o ministro Wellington Dias, conforme os registros divulgados.

Naquele período, a empresa já possuía contrato com a pasta.

As reuniões com Roberta

O aspecto mais sensível está na combinação desses encontros com a atuação de Roberta Luchsinger.

A lobista esteve diversas vezes no Ministério do Desenvolvimento entre 2023 e 2024.

Registros de portaria indicam que ela visitou a pasta pelo menos 16 vezes.

Em determinadas ocasiões, entrou acompanhada de empresários ou pessoas relacionadas ao setor de tecnologia.

Em outras, aparece acompanhada de Fernando Bittar, nome que também surge nas investigações envolvendo Lulinha.

Esses registros, por si só, não demonstram corrupção.

Uma lobista pode legalmente acompanhar empresários a reuniões com autoridades.

A investigação procura determinar qual era exatamente o propósito desses encontros e se houve alguma influência indevida sobre decisões administrativas.

A “taxa de sucesso”

Outro elemento que tornou a relação mais delicada foi a existência, segundo a investigação, de um contrato de “taxa de sucesso” entre Cleber Ribas e a empresa de Roberta.

Segundo o UOL, a RL Consultoria e Intermediações, ligada a Roberta Luchsinger, recebeu aproximadamente R$ 3 milhões de Ribas entre 2023 e 2025.

O modelo investigado previa pagamentos relacionados à obtenção ou facilitação de negócios.

A existência de uma comissão comercial, por si só, não é necessariamente ilícita.

Empresas podem contratar consultorias para prospecção de clientes, relações institucionais e desenvolvimento de negócios.

A questão para a PF é saber quais serviços foram efetivamente prestados e se os pagamentos tinham alguma relação indevida com a influência de Roberta sobre agentes públicos.

A suspeita envolvendo Lulinha

A investigação vai além de Roberta.

A Polícia Federal também apura uma possível relação empresarial entre ela e Fábio Luís Lula da Silva.

Segundo as informações divulgadas, os investigadores suspeitam que Lulinha e Fernando Bittar possam ter atuado como sócios ocultos de uma estrutura empresarial relacionada a Roberta.

Essa é uma hipótese investigativa.

Não existe, com base apenas nessa informação, uma conclusão judicial de que Lulinha seja sócio oculto ou tenha praticado qualquer crime.

A defesa dos envolvidos contesta as suspeitas.

O dinheiro e as despesas de Lulinha

A investigação também analisa pagamentos que, segundo os investigadores, poderiam ter beneficiado Lulinha.

Mensagens interceptadas são utilizadas para tentar estabelecer se valores pagos por empresários a Roberta tinham algum destino indireto relacionado ao filho do presidente.

Uma das linhas analisadas envolve o pagamento de despesas, como passagens e outros gastos.

Novamente, são elementos sob investigação.

O que ainda precisa ser provado é a natureza desses pagamentos, quem os autorizou e se havia uma contrapartida relacionada ao governo.

O Exército também aparece

A 3Structure não atuou somente junto ao Ministério do Desenvolvimento.

Segundo o levantamento, a empresa também firmou um contrato de aproximadamente R$ 21,8 milhões com o Exército Brasileiro, em novembro de 2022.

Esse contrato é anterior ao terceiro mandato de Lula.

Esse detalhe é importante porque demonstra que a trajetória comercial da empresa com o poder público não começou no atual governo.

A empresa já atuava no mercado de contratos públicos antes de 2023.

Isso não elimina a investigação atual, mas impede que todos os contratos da companhia sejam automaticamente apresentados como resultado do governo Lula.

Funasa e Instituto Nacional de Surdos

O levantamento também identifica contratos menores com outros órgãos.

Com a Funasa, os contratos somam aproximadamente R$ 2,4 milhões.

Com o Instituto Nacional de Surdos, o valor informado é de aproximadamente R$ 177 mil.

A soma desses contratos ajuda a explicar como a empresa atingiu mais de R$ 81 milhões em negócios federais.

Telebras

A Telebras, empresa estatal vinculada ao governo federal, também contratou a 3Structure.

O valor do contrato, contudo, não foi informado nos dados apresentados pela empresa estatal, segundo a reportagem.

A contratação aumenta o número de órgãos públicos que mantiveram relações comerciais com a companhia.

Novamente, isso não significa que os contratos sejam irregulares.

A questão investigativa é saber se houve algum favorecimento indevido.

A cronologia que chamou atenção

A Polícia Federal também analisa a sequência de determinados acontecimentos.

Segundo as informações divulgadas pelo UOL, Cleber Ribas esteve no Ministério do Desenvolvimento em 8 de maio de 2024.

Pouco depois, em 20 de maio, a 3Structure abriu uma filial em Brasília.

Em 3 de junho, o ministério publicou uma licitação para serviços de backup.

A empresa posteriormente venceu o processo.

A coincidência temporal despertou a atenção dos investigadores.

Mas é preciso evitar uma conclusão automática.

Cronologia não é prova de direcionamento.

Para demonstrar irregularidade, seria necessário mostrar que houve combinação, interferência ou favorecimento ilegal.

O pregão foi posteriormente refeito

O processo licitatório mencionado ainda teve outro capítulo.

O pregão foi revogado em 2024 e posteriormente realizado novamente.

Na nova disputa, os mesmos oito itens e as mesmas quantidades foram mantidos.

A 3Structure venceu o certame refeito e, em abril de 2026, assinou um contrato de aproximadamente R$ 19,2 milhões.

O intervalo entre os acontecimentos é significativo.

A contratação ocorreu quase dois anos depois das reuniões de 2024.

A defesa da empresa afirma justamente que essa distância temporal demonstra que não haveria relação entre os encontros e a contratação posterior.

A defesa de Cleber Ribas

Cleber Ribas nega irregularidades.

A defesa afirmou que a 3Structure já prestava serviços ao Ministério do Desenvolvimento e que a presença de um representante da companhia no ministério seria parte normal da relação comercial entre fornecedor e cliente.

Segundo essa versão, reuniões de acompanhamento e pós-venda não representam, por si só, tentativa de interferência em licitações.

A defesa também afirma que os contratos foram obtidos por procedimentos legais e transparentes, sem favorecimento.

A posição do Ministério

O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social também afirmou que os procedimentos de contratação foram realizados pelas áreas técnicas competentes.

A pasta declarou que o valor estimado pela administração para determinado contrato era de R$ 32,5 milhões por 36 meses, enquanto a contratação resultou em um valor de R$ 28,2 milhões, abaixo do preço de referência.

O ministério também afirmou que os atestados de capacidade técnica foram analisados de acordo com as exigências do edital.

Essas informações são relevantes porque indicam que, do ponto de vista formal, a pasta sustenta a regularidade dos procedimentos.

O outro lado da investigação

Mesmo com a defesa da empresa e do ministério, a Polícia Federal continua investigando a atuação de Roberta.

O objetivo não é apenas verificar se houve contratos.

Os contratos já são conhecidos.

O que está sendo investigado é se existiu uma estrutura de influência por trás deles.

Essa diferença muda completamente a natureza do caso.

Roberta esteve 16 vezes no ministério

O número de visitas da lobista ao MDS chama atenção.

Segundo registros analisados pelo UOL, Roberta esteve na pasta pelo menos 16 vezes.

Em várias dessas ocasiões, encontrou-se com o secretário-executivo ou com pessoas próximas à cúpula do ministério.

Em duas datas, 24 e 25 de janeiro de 2024, os registros indicaram que ela iria se encontrar com Wellington Dias.

Em outras ocasiões, teria acompanhado empresários interessados em negócios com a União.

É esse padrão de circulação que levou a PF a investigar se Roberta exercia apenas atividade legítima de representação comercial ou se utilizava seus contatos de maneira ilícita.

Um detalhe ainda mais delicado

Em algumas visitas, Roberta entrou acompanhada de pessoas que posteriormente passaram a aparecer em investigações de corrupção.

Um dos nomes citados é Claudinei Quaresmin, ligado ao ex-governador do Tocantins Mauro Carlesse.

Quaresmin foi preso em 2024 na Operação Overclean, investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de corrupção e desvios relacionados a contratos públicos.

A presença de uma pessoa investigada em uma reunião não transforma automaticamente os demais participantes em suspeitos.

Mas a circunstância aumenta o interesse dos investigadores em reconstruir quem conhecia quem e para tratar de quais assuntos.

A questão das agendas oficiais

Outro ponto levantado pela reportagem envolve a transparência das reuniões.

Alguns dos encontros não apareceram originalmente na agenda oficial das autoridades.

O MDS explicou que determinadas visitas não foram registradas no sistema de e-Agendas porque não haviam sido formalmente agendadas como reuniões com as autoridades.

Mas a reportagem aponta que um decreto de 2021 estabelece regras para o registro de compromissos mesmo quando ocorridos sem agendamento prévio.

Esse episódio abre uma discussão adicional: como garantir transparência quando lobistas e empresários circulam dentro de ministérios?

Não basta a existência do contrato

É importante evitar uma conclusão simplista.

Uma empresa fechar R$ 81 milhões em contratos com o governo não significa que houve corrupção.

Grandes empresas de tecnologia fornecem serviços ao poder público há décadas.

O governo federal possui milhares de contratos com empresas privadas.

A suspeita somente ganha dimensão criminal caso a investigação demonstre que houve pagamento indevido, fraude, direcionamento, tráfico de influência ou outra prática ilícita.

Até agora, os fatos apresentados sustentam uma investigação, não uma sentença.

Mas também não basta dizer “foi licitação”

O outro extremo também merece cuidado.

A existência de uma licitação não encerra automaticamente qualquer investigação.

Uma licitação pode ser regular.

Mas pode também ser fraudada ou direcionada.

Por isso, investigadores examinam não apenas o edital final, mas também reuniões anteriores, contatos, documentos, pagamentos e eventuais vínculos entre os participantes.

É justamente esse cruzamento que está sendo realizado no caso.

Lulinha no centro político do episódio

A dimensão política do caso vem principalmente da presença de Lulinha.

O filho do presidente aparece porque a PF investiga sua relação com Roberta e possíveis benefícios financeiros.

Até o momento, porém, não se deve transformar a investigação em condenação.

Lulinha não está automaticamente envolvido em cada contrato da 3Structure apenas porque Roberta era sua amiga.

É necessário demonstrar participação concreta.

Roberta entre amizade e lobby

A própria Roberta afirma que Lulinha é seu amigo há muitos anos.

Ela também sustenta que sua atuação era empresarial e que não utilizava a amizade para obter benefícios do governo.

A Polícia Federal tenta verificar se essa versão corresponde ao conjunto dos fatos.

Esse é o verdadeiro ponto da investigação.

Se a amizade era apenas amizade, os contratos deverão ser analisados como negócios comerciais independentes.

Se houve utilização da relação para obter vantagens, a interpretação poderá ser completamente diferente.

A defesa da empresa

A 3Structure IT sustenta que todos os contratos foram obtidos de maneira legal.

A empresa afirma que participou dos procedimentos administrativos previstos em lei e que os contratos foram celebrados de forma transparente.

Essa posição deverá ser considerada na investigação.

O simples fato de a empresa possuir contratos públicos não permite classificá-la como beneficiária de esquema ilegal.

O que chama atenção

A combinação de elementos, entretanto, explica por que a história cresceu.

Há uma empresa com mais de R$ 81 milhões em contratos federais.

Há uma lobista que a representava em Brasília.

Há registros de numerosas visitas ao governo.

Há pagamentos de milhões à empresa de consultoria de Roberta.

Há uma relação de amizade entre ela e Lulinha.

Há suspeitas de sociedade oculta.

E há investigações da Polícia Federal.

Nenhum desses elementos, isoladamente, prova corrupção.

Mas, juntos, formam o quadro que está sendo examinado pelas autoridades.

O dinheiro público e a responsabilidade do governo

Existe ainda uma questão de natureza política.

Quando uma empresa privada conquista dezenas de milhões de reais em contratos com o governo, o cidadão tem o direito de saber como esses contratos foram obtidos.

Não porque toda contratação seja suspeita.

Mas porque o dinheiro utilizado pelo Estado pertence, em última instância, aos contribuintes.

Quanto maior o valor, maior deve ser a transparência.

A responsabilidade do governo Lula

O governo Lula tem um papel importante nesse episódio porque parte significativa dos contratos destacados foi firmada durante sua administração.

Mas é preciso observar a cronologia.

Um dos contratos mais expressivos, de R$ 21,8 milhões com o Exército, foi firmado em 2022, antes do atual mandato presidencial.

Por outro lado, os contratos do MDS e os encontros investigados ocorreram durante o atual governo.

A separação temporal é essencial para evitar que toda a trajetória comercial da empresa seja atribuída ao governo Lula.

A pergunta que permanece

A questão central agora não é saber se a 3Structure ganhou contratos.

Isso já está documentado.

A pergunta é:

os contratos foram conquistados exclusivamente pela capacidade técnica e pelos processos legais de contratação ou houve influência indevida nos bastidores?

É essa resposta que a investigação precisa produzir.

Observação em destaque

OBSERVAÇÃO: o valor de mais de R$ 81 milhões em contratos federais é um dado sobre negócios firmados pela 3Structure IT com órgãos públicos; não representa, por si só, prova de corrupção ou favorecimento. A Polícia Federal investiga a atuação de Roberta Luchsinger, os pagamentos feitos à sua empresa de consultoria e possíveis relações com Lulinha. A empresa e as pessoas envolvidas negam irregularidades e sustentam a legalidade das contratações.

O caso está apenas começando a ser esclarecido

O episódio mostra como uma investigação financeira pode revelar conexões que, à primeira vista, parecem não ter relação.

Uma empresa de tecnologia.

Uma lobista.

Um empresário.

Um filho do presidente.

Um ministério.

Contratos milionários.

Reuniões.

Pagamentos.

E documentos.

A Polícia Federal tenta juntar essas peças.

A defesa tenta demonstrar que são fatos independentes e legítimos.

O governo afirma que os procedimentos de contratação seguiram as regras.

E o debate político transforma o caso em mais uma frente da disputa eleitoral entre Lula e seus adversários.

Mas o jornalismo precisa resistir à tentação de antecipar a conclusão.

R$ 81 milhões em contratos não significam automaticamente corrupção.

Da mesma forma, dizer que tudo foi absolutamente regular antes de terminada a investigação também seria precipitado.

O que existe, por enquanto, é uma cadeia de relações e contratos suficientemente relevante para justificar a investigação.

E a pergunta essencial permanece:

onde termina o lobby legítimo e começa o tráfico de influência?

É exatamente essa fronteira que os investigadores terão de esclarecer.

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