
Esquerda se escandaliza com ocupação do Congresso, mas esquece que fizeram pior em 2017
Enquanto protestam contra a direita, senadoras que hoje condenam invasões foram protagonistas da mesma estratégia que agora criticam — uma hipocrisia política que revela mais sobre o jogo de poder do que sobre princípios democráticos.
Não é difícil perceber a ironia que ronda a política brasileira quando membros da esquerda se levantam indignados contra as recentes ocupações do Senado e da Câmara feitas por movimentos da direita. Afinal, foram exatamente essas mesmas figuras que, em 2017, protagonizaram uma invasão do Plenário do Senado, bloqueando a votação da reforma trabalhista e paralisando os trabalhos legislativos por dias
Naquela ocasião, lideradas por senadoras como Gleisi Hoffmann, Fátima Bezerra e Vanessa Grazziotin, as bancadas de oposição ocuparam a Mesa do Senado em ato de resistência contra uma pauta que consideravam regressiva para os direitos dos trabalhadores. Mesmo com microfones cortados e luzes apagadas, resistiram, impedindo o avanço do governo Temer. Eunício Oliveira, então presidente do Senado, não hesitou em minimizar a ação com a frase “deixa elas lá comendo marmita”, mostrando o quanto o poder estabelecido estava preparado para suportar a pressão.
Mas o que chama atenção é a facilidade com que a esquerda agora se coloca como defensora da “ordem” e da “democracia”, condenando manifestações da direita que fazem exatamente o mesmo: ocupações, protestos e paralisias. É aquela velha estratégia de “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.
O senador Jorge Viana, na época, tentou justificar a ocupação como um “ato político legítimo”, enquanto Eunício taxava o protesto de “vergonha”. Hoje, quando a direita se organiza para ocupar espaços do Congresso, a resposta vem carregada de críticas, acusações de ameaça à democracia e pedidos por repressão.
Essa hipocrisia é a verdadeira face da política brasileira, onde a defesa da democracia vira moeda de troca conforme o interesse do momento. Esqueceram que a democracia é plural, que o debate passa pelo incômodo e pelo confronto, e que o direito à manifestação não pode ser seletivo.
Se a esquerda insiste em apontar o dedo para as ocupações recentes, deveria antes reconhecer que foi ela que abriu o precedente em 2017, paralisando o Senado e tentando impedir decisões que não agradavam ao seu lado. A verdadeira questão não é quem ocupa, mas sim quem tem o monopólio do discurso da moralidade política.
No fim, fica o registro: a indignação seletiva e a hipocrisia política corroem a confiança na democracia — e isso ninguém deveria aceitar.