
EUA reagem e criticam prisão de Bolsonaro: “ato exagerado que expõe o Brasil ao ridículo”
Embaixada americana vê abuso de poder, enquanto Moraes justifica ação com risco de fuga e tentativa de romper tornozeleira
A prisão preventiva de Jair Bolsonaro, realizada pela Polícia Federal no último sábado, ecoou além das fronteiras brasileiras — e não exatamente de forma positiva. A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil fez uma crítica direta e dura, classificando a detenção como um ato “provocativo e desnecessário”, expondo o Brasil a um constrangimento internacional.
A reação veio após o ministro Alexandre de Moraes revogar o regime domiciliar que Bolsonaro cumpria desde agosto. Para Moraes, havia risco real de fuga, motivado pela vigília convocada por Flávio Bolsonaro em frente ao condomínio do pai e pela tentativa de violação da tornozeleira eletrônica — que Bolsonaro admitiu ter esquentado com um ferro de solda “por curiosidade”.
A declaração publicada pela Embaixada é uma tradução de um post do vice-secretário de Estado americano, Christopher Landau. No texto, ele acusa Moraes de ultrapassar limites, ignorar a autocontenção do Judiciário e manchar a imagem do Supremo. Para os americanos, prender alguém que já estava monitorado, vigiado e proibido de se comunicar livremente não faz o menor sentido.
A BBC Brasil tentou confirmar se o governo dos EUA manteria essa posição mesmo diante das novas informações, mas ainda não obteve resposta.
A crítica internacional inflamou ainda mais o debate político no Brasil. Eduardo Bolsonaro, em resposta ao diplomata americano, agradeceu o apoio e comparou a situação atual do país com regimes autoritários da Nicarágua e da Venezuela. Segundo ele, as instituições brasileiras teriam sido tomadas por “censura, medo e arbitrariedade”.
Enquanto isso, Donald Trump — aliado histórico de Bolsonaro — foi surpreendido ao ser informado da prisão. Sem saber dos detalhes, resumiu: “É uma pena”.
Do outro lado, Moraes detalhou na decisão que a vigília convocada por Flávio poderia gerar tumulto, dificultar a fiscalização policial e até criar um cenário para fuga. Para o ministro, a movimentação repetia o padrão de mobilizações já vistas em outros momentos, inclusive nos acampamentos que antecederam os atos de 8 de janeiro.
O documento cita ainda aliados que teriam deixado o Brasil para escapar da Justiça, como Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, ambos condenados no mesmo processo que resultou nos 27 anos de pena aplicados a Bolsonaro.
A prisão ocorre no momento mais delicado do caso. O STF rejeitou recursos recentes da defesa e o processo se aproxima do fim, aumentando a possibilidade de cumprimento efetivo da pena em regime fechado.
Entre críticas externas, acusações internas e um país polarizado, o episódio expõe mais uma vez como a política brasileira se tornou um campo minado — onde cada gesto vira munição e cada decisão reverbera muito além dos tribunais.